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sábado, 12 de novembro de 2011

Alta Fidelidade: João Gilberto Está Triste






Conhecido como um dos criadores do Novo Jornalismo – em resumo, um misto de narrativa jornalística e literária – Gay Talese, em um perfil sobre Frank Sinatra, cunhou uma expressão característica utilizada até hoje: o resfriado.

Na composição do artigo, Talese não teve acesso ao cantor. Aproveitou-se de amigos e conhecidos ao redor para produzir uma narrativa sem igual sobre o mito de olhos azuis. Frank Sinatra Está Resfriado tornou-se uma referência do novo estilo. De uma comum infecção no trato respiratório surgia uma narrativa inovadora sobre o astro. O resfriado tornou-se sinônimo daqueles que não querem conceder uma entrevista ou são reclusos por escolha. Expressão ainda funcional. Quando um artista prefere manter-se em silêncio, está resfriado.

Há uma semana noticiou-se que João Gilberto estava resfriado, motivo que adiou a turnê de shows em comemoração aos oitenta anos do criador da Bossa Nova. Uma frase que seria simples produz contornos diversos tratando-se do baiano. João gripado é mais do que uma congestão nasal.

Considerado um músico impar que além do talento nato possui apuro pela perfeição, João está inserido em um código antigo, representando um artista com estilo extinto. A figura brilhante, mas envolta em hábitos peculiares. Fundindo realidade e boatos em uma nebulosa que faz parte de sua fama: entra em um palco somente quando suas normas foram rigorosamente seguidas. Não se sente confortável com a recepção de palmas, gritos ou vozes que o acompanham nas canções. Se incomodado, retira-se do concerto sem nenhum problema.

O distanciamento vertical entre público e artista, visto como superior por sua arte e assim louvado, era regência natural na época em que a indústria fonográfica estava em alta. Músicos não só eram populares como representavam símbolos de gerações.

Hoje, estão entre seu público, a procura de dialogo, tentando salvar – ou construir - carreiras que, as vezes iluminadas pela indústria, ruiram com a queda das gravadoras. Espantoso seria se João se adequasse a tal postura. A um homem com seu talento é permitido tais extravagância, sem mencionar o fato de que suas excentricidades são conhecidas dos fãs.

A gripe de João Gilberto também se tornou destaque ao mencionar que o cantor estaria entristecido com o encalhe de ingressos para sua turnê comemorativa. A exceção do Rio de Janeiro, com ingressos esgotados, há lugares disponíveis em todos os shows. Os preços foram motivo de reclamação do público, contrariado em pagar de quinhentos a mil e quatrocentos reais por uma entrada.

As apresentações para um público ainda nanico, quando se esperavam ingressos esgotados, não se justifica apenas pelos preços altos. Se em um dado momento a Bossa Nova e a Música Popular Brasileira representaram o gosto de boa parte do Brasil, hoje é popular apenas na nomenclatura. Fosse o show de uma cantora de axé com bebida e foliões, estaria esgotado no primeiro dia de vendas.

O incômodo de João é justificável. Seu ritmo modificou a música brasileira em grande escala. A alcunha de gigante não é exagero, mas mérito de quem, a partir do samba, produziu um novo ritmo que ao lado do futebol, das mulatas e da caipirinha faz parte do imaginário mundial sobre o Brasil.


João ansiava que sua volta aos palcos fosse celebração estrondosa. Como não foi, gripou-se. Esqueceu de refletir que tal calor do público poderia ser visto com maus olhares a quem sempre foi recluso. A ausência de seu público é tão espantosa quanto sua vontade de vê-los.

As reclamações dos altos preços devem a produção de shows internacionais realizados no país nos últimos anos. Calcula-se de maneira relativa que se artistas estrangeiros fizeram shows acessíveis, os brasileiros deveriam, no mínimo, manter a margem de preços. Sem levar em consideração que tais shows são apresentados em estádios para grande público, ao contrário dos brasileiros sempre em casas menores.

Destaca-se a crença infeliz de que a música produzida no exterior tem mais qualidade do que a nossa apenas por não ser daqui. E tal idéia não se afirma apenas na música, basta observar que o mercado editorial de livros mais pública traduções do que obras originais em nossa língua.

A tabulação dos preços, sem dúvida, transforma a comemoração dos oitenta anos de João Gilberto em um espetáculo direcionado somente a um público específico e com poder aquisitivo evidente. Mas parece razoável a idéia de que, provavelmente, boa parte do seu público tenha verba suficiente para tal.

Incomodo maior do que a quantia para o ingresso é refletir o quanto se leva mais em conta a cultura exportada do que a produzida made in brazil. Ainda mais quando é possível contemplar ao vivo um artista do porte de João Gilberto.

Com sua voz contida, quase a meio fio, e um violão cuja harmonia é perfeita, os shows em sua celebração estão programados para dezembro e, de acordo com informações até agora, gerarão dois registros em DVD.

João Gilberto pode ter gripado, mas volta para tocar seu baião.


Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog. Aqui é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre literatura, cinema, música e afins.

sábado, 13 de agosto de 2011

Alta Fidelidade: 24 Horas e o ápice da ação





São raras produções que utilizam, na progressão de sua narrativa, a estética do tempo real. Desencadear cenas sem espaçamentos temporais é um processo que, se não bem realizado, dificulta a ação e não obtém sucesso.

Em 1995, Johnny Depp e Christopher Walken estrelaram um longa que utilizava tal estética. Tempo Esgotado apresenta Depp como um homem comum que, para salvar sua filha seqüestrada, precisa executar a governadora da Califórnia em um curto prazo de tempo. A ação, boa parte realizada em um shopping, mantém a tensão devido a personagem contra o relógio.

O tempo como um dos pilares que movimentam a trama esteve presente também em 88 Minutos, filme de Jon Avnet, com Al Pacino como um professor universitário que ganha o prazo do título para resolver um crime que pode envolvê-lo.

Ainda que não inédito, o conceito de tempo real sempre foi explorado de maneira isolada. Até 2001, precisamente em dezembro, quando a Fox americana exibiu o primeiro episódio da série que se consagraria como um marco no recurso e tornaria-se uma grandiosa história de ação.

24 Horas, desde o título, demonstra a urgência de sua narrativa. Enquanto um enredo tradicional de uma temporada desenvolve-se em vinte e quatro episódios que costumam abranger um ano das personagens, aqui a aventura concentra-se em um dia completo.

Situações limites, impostas sempre em seu início. Ação, drama tenso e reviravoltas tornaram-se elementos comuns no roteiro que fundamentou a estrutura da série. Apresentando diversos planos diferentes de ações na mesma hora, delineando a sensação da realidade e do simultâneo.

Ainda que estruturalmente seu roteiro mantenha-se igual nos oito anos de produção, sua figura central, Jack Bauer, sofre grandes transformações. De um renomado agente contra terrorismo, Bauer galga-se como herói de grande representação. Cada dia fatídico vivido por sua persona aprofunda o abismo de sua personalidade. Contornos humanos perdem dimensão, tornando-o um homem quase impenetrável, cujo suporte maior é reger-se apenas pela lei. Sendo capaz de, por ela, sobreviver as mais terríveis agonias e voltar, como todo herói, intacto, mais centrado e agressivo.

A ação projetada na tela nada deve a uma produção cinematográfica. Composta de maneira cuidadosa tanto no roteiro, na concepção de personagens e em detalhes que podem passar despecebidos pelo público. Como a continuidade cuidadosa que convence que a história gravada em oito meses parece, de fato, estar centrada em um único dia.

A série apresenta uma narrativa crua e violenta, não vista na televisão desde Nova York Contra o Crime. Centrada a partir da CTU, Unidade Contra o Terrorismo, não se poupam cenas de tortura, morte e agentes treinados para usar qualquer elemento a procura de culpados.

A violência exibida na série foi alvo dos direitos humanos, gerando pronunciamento de diversos órgãos contra as cenas violentas, nos quais alegaram que a realidade fora amplificada exageradamente. Uma evidente subestimação da observação pública perante notícias de guerra diária em jornais.

A temporalidade fiel, elementos próximos da realidade conhecida, acrescidas a um personagem heróico – que abdica de seu próprio bem para um bem maior – formularam o sucesso da série.

Seu primeiro ano, envolvendo Jack Bauer em uma conspiração para matar o canditado David Palmer, foi o primeiro passo para apresentar um enredo inovador que, ao mesmo tempo, executa de maneira exemplar a cartilha dos bons clichês do gênero.

Embora cada vez mais imprecisa temporada a temporada, a sensação de tempo real registra pontos altos de tensão pelas pausas e desencadeamento de reações e reviravoltas que mudam o enredo.

Infelizmente, em alguns anos, a previsão de produtores e roteiristas ao estruturar os episódios falhou miseravelmente. Fazendo com que a grande ação central finalizasse horas antes do fechamento do dia. Evidenciando uma sub história trazida às pressas para cobrir as horas restantes.

Mesmo que as oito crises diárias apresentem oscilações, Jack Bauer tornou-se um inegável marco. Sua personagem expandiu-se além série, transformou-se em um ícone heróico. Símbolo que reflete a maneira contemporânea de se conceber um herói: aquele que luta pelo bem maior, acima de tudo. Não importando quais meios o levem a isso.

A série está disponível de maneira completa em DVD, no Brasil. Tanto temporada por temporada quanto na bela caixa que ilustra esse texto e que engloba todas as temporadas mais o filme A Redenção que se passa entre a sexta e sétima temporada.



Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog que, hoje, apresentou a primeira análise de três sobre séries americanas. Aqui é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre livros, filmes, dvds, cds e, nessa semana e nas próximas, séries em geral e três seriados atuais que já são um marco: 24 Horas, Lost e House M.D.

sábado, 6 de agosto de 2011

Alta Fidelidade: A Supremacia dos Seriados


Quem acompanha este espaço crítico, cuja ênfase maior é o cinema e as séries televisivas, perceberá que durante as análises intento estabelecer uma linha de raciocínio. Baseada em uma observação própria além das tendências lançadas nos últimos anos.

Não é necessário procurar com minúcias para notar que cinema e séries orientam-se, atualmente, em movimentos distintos. Ainda que possuam intersecções, encontram-se em um percurso diferente nos últimos dez anos.

Por trás do glamour cinematográfico, característica primordial que nos vem a mente ao pensarmos no cinema americano, há uma indústria da sétima arte. Que, com urgência, precisa de polimento e reforma nas engrenagens.

Apontar a pirataria e a expansão da internet como motivo de queda no faturamento de ingressos, recepção média do público, é um artifício fácil. A situação é mais intrincada ao analisar o interior de sua construção arcaica, descobrindo quais as conseqüências que levaram a este momento, considerado decadente.

A indústria não foi capaz de trabalhar com as formúlas que estabeleceu. Na incerteza, atores de grande porte perderam espaço para outros menores e com baixo talento, migrando de produções gigantescas do cinema-pipoca para obras menores. Quando não mudaram de carreira, tornando-se produtores, diretores e encontrando nas séries de televisão, espaço sem tanta força, um fôlego e recomeço.

O escopo para realização de uma obra seriada é infinitamente mais amplo que a produção cinematográfica. O custo é mais econômico, sendo possível fazer dois episódios, ou mais, com a verba de um filme. Apresentando-se uma vez por semana tem um termômetro mais certeiro. Se perde audiência, é cancelada. Se o público sente-se incomodado com alguma situação, ela é revertida em poucos episódios e mantém a audiência.

Em média, a cada temporada, há uma longa história diluída em aproximadamente 20 partes. Sendo possível trabalhar e construir melhor tramas e personagens. Espaço que permitiu que atores talentosos mas não tão conhecidos do público, mostrassem a potência de seu trabalho.

De maneira discreta, produtores começaram a apostar e investir em seriados. Primordialmente pelo potencial de seu enredo, não regidos por uma lei presente no cinema: um ator famoso é resultado de um filme bom e com bilheteria.

Um movimento que parecia arriscado anos atrás, desenvolver uma idéia apenas pela força de sua história, tornou-se um seguro caminho. Comprovando que mesmo que o público deseje ver seus atores preferidos em tela, um bom enredo é bem recebido.

Canais abertos e pagos da televisão americana começaram a produzir, anualmente, diversas séries que visavam conquistar o público mantendo a qualidade.

Por um lado, a indústria da sétima arte apresentava-se morna, sem muitos filmes excelentes nos anos que passavam. Espaço que fez parte do público voltar seus olhos para a televisão, fazendo com que um campo tão desolado na década de noventa, caísse no gosto do público.

Hoje somam-se dez anos de um caminho novo na produção de seriados americanos que supera por quantidade e qualidade o cinema. Recordes de audiência que comoveram multidões, ganharam fãs que deram início ao movimento serimaníaco que, em escala global, acompanham as temporadas semanalmente, em sincronia com os americanos.

A indústria seriada cresceu gigantescamente nos últimos anos. Desenvolveu, com precisão, começo, meio e fim de diversas histórias que não só envolveram o público como tornam-se um marco contemporâneo.

A totalidade de produções, nos últimos dez anos, é abrangente. Assim, foi necessário selecionar três grandes séries que serão analisadas individualmente. Escolhidas por, desde já, se tornarem referência, muita vezes inédita em seu lançamento.

24 Horas tornou-se pioneira do conceito de ação real, provando que a supremacia da ação não só pertence ao cinema. Lost fez o mundo parar a cada episódio com sua intrincada teoria conspiratória. E House M.D. que trouxe a tona a empatia do público, identificado no pesado anti-heroi, aquebrantado, mas brilhante.

Três histórias distintas que simbolizam parte do melhor que se produziu desde a retomada, em qualidade e também audiência. Conquistando espaço nas séries cativas do público.


Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog que, hoje, apresentou um panorama das séries americanas. Aqui é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre livros, filmes, dvds, cds e, nessa semana e nas próximas, séries em geral e três seriados atuais que já são um marco: 24 Horas, Lost e House M.D.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Alta Fidelidade: 24 Horas e o ápice da Ação






São raras as produções que utilizam, na progressão de sua narrativa, a estética do tempo real. O desenvolvimento sem nenhum corte temporal é um processo que pode dificultar a ação e, sem um trabalho bem realizado, se torna um material sem sucesso.

Em 1995, Johnny Depp e Christopher Walken estrelaram um longa que se utilizava do estilo. Tempo Esgotado apresenta Depp como um homem comum que tem sua filha seqüestrada e é obrigado, em um curto prazo de tempo, a executar a governadora da Califórnia. A ação, boa parte realizada em um shopping, mantém sua tensão devido a personagem contra o relógio. Críticas não foram favoráveis, mas há momentos que a trama funciona.

O tempo como um dos pilares da trama também foi presença em 88 Minutos, filme de Jon Avnet com Al Pacino em que o tempo citado é o prazo para que um professor universitário resolva um assassinato que pode envolvê-lo.

Ainda que não inédito, o conceito de tempo real sempre fora explorado de maneira isolada. Em 2001, precisamente em dezembro, que a Fox americana exibiu o que seria considerado um marco no recurso e também uma grande história de ação.

A série 24 Horas, desde seu título, demonstra a urgência de sua narrativa. Enquanto o enredo tradicional de uma temporada desenvolve-se em vinte e quatro episódio, que abrangem um ano aproximado da vida das personagens, aqui a aventura concentra-se em um dia completo.

Trabalhando situações limites impostas e apresentadas sempre em seu início, ação, tensão e reviravolta são elementos comum no roteiro que se tornou uma estrutura intacta na série, apresentando diversas ações no decorrer da mesma hora, delineando bem a sensação de tempo real e simultâneo.

Ainda com uma estrutura intacta em seus oito anos de produção, sua figura central, Jack Bauer, é quem sofreu maior transformação. De um ótimo agente contra terrorismo, Bauer transforma-se em herói de grande representação. Cada dia fatídico vivido por sua persona aprofunda mais o abismo de sua personalidade, seus contornos humanos perdem dimensão, tornando-o um homem quase impenetrável, cujo suporte maior é reger-se pela lei, pelo bem maior. Capaz de sobreviver até as mais terríveis dores e amargurar e voltar, de certa maneira, intacto, mais centrado e mais irritado.

A ação projetada na tela é digna de uma produção cinematográfica. É composta de maneira cuidadosa em suas estruturas, tanto no roteiro, em personagens como em detalhes que passam despercebidos pelo público por sua excelência: a continuidade cuidadosa que convence que uma história gravada em oito meses pareça mesmo estar centrada em apenas um dia.

Além da execução técnica da série, elementos de sua narrativa são bastante reais e verossímeis. Focados em manter um elo com o presente conhecido do público, a série apresenta uma narrativa crua e violente, não vista na televisão desde Nova York Contra o Crime. Tratando-se de uma Unidade Contra o Terrorismo como escopo para ação, é de se prever que agentes fazem tudo a suas mãos para procurar culpados. Não poupando cenas de tortura, morte, que causaram comoção aos mais sensíveis e aos simpatizantes dos diretos humanos. Mesmo que diversos órgãos tenham se pronunciado contra a violência da série, que não seria um espelho da realidade, é subestimar a observação pública perante as notícias diárias.

A idéia do real transposto a tela, seguindo uma lógica temporal como estamos acostumados, acompanhando um personagem que se torna um herói, abdicando muitas vezes de seu bem próprio para o bem de todos são grandes elementos que compõe e fizeram o sucesso da série.

Ainda que em seu lançamento tal sucesso não era tão esperado. Tanto que no meio da primeira temporada há um encerramento do enredo. Uma tática dos produtores para, caso a Fox não aprovasse uma temporada completa, ao menos apresentar um fim ao público.

Mas o primeiro ano envolvendo Jack Bauer em uma conspiração para matar o candidato David Palmer foi o primeiro passo para apresentar um enredo que ainda que caminhe nos clichês do gênero, é executado de maneira exemplar.

Cada temporada desenvolveu crises diferentes com espaçamento temporais cada vez maiores. Infelizmente, em certos anos, a previsão dos produtores e roteiristas saíram errado, fazendo com que a grande ação central finalizasse horas antes do fechamento do dia. Deixando evidente uma sub história desenvolvida as pressas para cobrir as horas que estavam por vir. Deslizes que, mais de uma vez, aconteceram.

A sensação da temporalidade real, embora cada vez menos preciso temporada a temporada, registrava uma sensação angustiantes pelas pausas e a cada hora certa que desencadeava alguma revelação ou grande evento.

A série trouxe o ator Kiefer Sutherland de volta ao estrelado, recebendo Emmys e Globo de Ouro por interpretação, roteiro e melhor série em uma de suas melhores temporadas.

Alguns detratores dizem que o tempo que a série esteve ao ar foi longo demais. Porém, mesmo apresentando oito crises diárias com algumas oscilações, é inegável que Jack Bauer tornou-se um marco. Sua personagem se espandiu além da série, virando um ícone heróico e ainda resultou em uma série genuinamente de ação que nunca teve medo de dialogar com a realidade e de produzir violência.

A série está disponível de maneira completa em DVD, no Brasil. Tanto temporada por temporada quanto na bela caixa que ilustra esse texto e que engloba todas as temporadas mais o filme A Redenção que se passa entre a sexta e sétima temporada.






Para ler também: Alta Fidelidade: A Supremacia dos Seriados



Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog que, hoje, apresentou a primeira análise de três sobre séries americanas. Aqui é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre livros, filmes, dvds, cds e, nessa semana e nas próximas, séries em geral e três seriados atuais que já são um marco: 24 Horas, Lost e House M.D.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Alta Fidelidade: A Supremacia dos Seriados


Quem acompanha este espaço de resenha e crítica, com ênfase para a cinematográfica e séries televisivas, será capaz de perceber que durante as análises tento prosseguir com uma contínua linha de raciocínio. Baseio-me na observação atenta das tendências dos últimos anos e em meu discernimento como apaixonado por ambas.

Não é necessário uma procura minuciosa para notar que cinema e séries orientam-se, atualmente, em movimentos distintos. Ainda que possuam intersecções, seu percurso nos últimos dez anos tem sido diferente.

Por trás do glamour cinematográfico, tratando-se da indústria que, de fato, é, as engrenagens da sétima arte necessitam de um polimento ou reforma. Acusar a pirataria e a internet como motivo de queda de vendas, falta de sucesso de produções é um artifício fácil. Complicado é analisar dentro de sua própria construção arcaica e descobrir as conseqüências que a levaram para este momento. Uma arte que, em números, é apresentada como em decadência (situação que necessita, sem dúvida, de um texto analítico também).

A própria indústria não soube trabalhar com as fórmulas que criaou. Nesses aspecto oscilante de incerteza, grandes atores perderam espaço para outros insignificantes, astros do grande escalão de Hollywood começaram a se afastar de gigantescas produções e foram migrando para outras carreiras. Algumas delas que deram espaço para as séries americanas, até então sem muita força, ganharem fôlego e um recomeço.

O espaço fornecido na televisão para a realização de uma série é infinitamente mais amplo do que uma produção cinematográfica. O custo é mais econômico e por apresentar-se uma vez a cada semana tem um termômetro mais certeiro. Se o público parece desgostoso com alguma situação, ela pode ser revertida em poucos episódios e manter sua audiência.

Por tratar-se de uma longa história diluída em, em média, 20 partes, personagens podem ser mais bem construídas e trabalhadas. Espaço que permitiu que muitos bons atores que nunca foram queridinhos do público pudessem mostrar a potência de seu talento.

De maneira discreta, grandes produtores começaram a apostar e investir em séries por seu potencial dramático, não porque levava no elenco algum nome estrelado. Mas sim pela força de sua história. Algo que parecia arriscado anos atrás, tornou-se um dos movimentos mais certeiros atualmente, comprovando que ainda que o público deseje ver seus atores preferidos em tela, comtemplar um bom enredo é sempre bem vindo.

Canais abertos e pagos da televisão americana começaram a produzir, anualmente, diversas séries que visavam qualidade e boa história. Produções com estilo de cinema.

Com a indústria da sétima arte apresentando-se de maneira média, com poucos excelentes filmes nos anos que se passaram, as séries caíram no gosto do público.

Hoje já se totalizam dez anos de um novo estilo de se produzir seriados americanos. Já que anteriormente, na década de oitenta e noventa, poucas produções mereceram destaque.

Nessa última década, séries foram lançadas e algumas consagraram seu estilo. Algumas eram tidas como promissoras e falharam miseravelmente. Outras foram recordes de audiência, comoveram multidões, criaram fãs, dando inicio a movimentos de serimaníacos que assistem o lançamento semanal dos episódios quase em sincronia com os americanos. De que maneira? Provavelmente ilegal. Pórem, que empresa questionaria tais métodos quando grande parcela do público tece só elogios episódio após episódio?

A indústria seriada cresceu bastante nesses anos. Tempo suficiente para desenvolver, com precisão, começo, meio e fim de diversos argumentos. Histórias que não só são exuberantes como, de certa forma, se tornaram um marco.

Em meio a tantas produções nos últimos dez anos, cuja totalidade de lançamentos seria abrangente demais, foram selecionadas três séries que, nos próximos sábados serão abordadas nesse espaço, cada uma escolhida por trazer ao público uma referência ou movimento até, então, inédito.

São elas: 24 Horas, que permaneceu por oito anos no ar e se tornou pioneira pelo conceito de ação em tempo real. Lost, pela consagração conspiratória que fez o mundo parar em cada episódio e House M.D. por trasformar um pesado anti-herói em um personagem brilhante e querido do público.

Análises de três séries distintas que pretender realizar um panorama do melhor que se produziu desde a retomada, visando sempre qualidade e audiência. Cada uma apresentada em um sábado com a intenção de não só recomendá-la aos leitores mas, de maneira definitiva, explicar porque elas são as séries que serão lembradas nessa década.


Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog que, hoje, apresentou um panorama das séries americanas. Aqui é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre livros, filmes, dvds, cds e, nessa semana e nas próximas, séries em geral e três seriados atuais que já são um marco: 24 Horas, Lost e House M.D.

sábado, 11 de setembro de 2010

Alta Fidelidade: Santa Música



Em um tempo anterior daquele que tenho recordações precisas, conheci uma frase do filósofo Nietzsche que, embora não presente de maneira ativa, foi guardada em sua essência.

Não me recordo sua origem. Obrigando-me a citá-la ou por memória ou pelo sistema, nem sempre preciso, da rede. Mesmo sujeito a uma falha tremenda, busquei-a para uma maior fidelidade: sem a música, a vida seria um erro.

Cresci em meio a música. Nas bolachas que estampavam as vitrines da loja de discos da família à vasta coleção de meu tio. Relíquia invejada por mim que, muito pequeno, era proibido de tocá-la.

Minha infância foi recheada de canções. A vitrola, presente de minha mãe em meu aniversário de cinco anos, foi a primeira felicidade sonora. Eu dispunha as caixas de um modo que o som estivesse presente em toda a casa. Mesmo que não suspeitasse, em minha crença infantil, que a família poderia não gostar de minha seleção.

Lembro-me de vinis arranhados pelo excesso de uso. Ouvidos, cada vez mais, com esmero, evitando outras canções riscadas. Uma coleção que se expandia devido a facilidade do acesso, na época em que o dinheiro era farto e a melodia da vida mais sonora.

Em retrocessos e abraços da memória, é viva a capa branca marcada pelo nome dos Beatles. Era o nascimento de meu amor musical. A cadência melódica dos na na na´s de Hey Jude como porta de entrada para a primazia do quarteto. Era o Big Bang musical.

Passado mais de vinte anos pós essas memórias, a música me completa como essência do que sou. Ondas sonoras documentando o que fui, registrando quem sou. Letras cantadas em viés, em descompasso ou ritmadas, na energia única que somente uma canção pode produzir.

Infeliz é aquele que vive sem música. Espaço em que a razão não é válida, entregue a um sopro de emoção e ritmo. Um frenesi.

Entre os vinis e a era dos compact discs até a explosão da música digital à rádios de nenhum lugar, viva a santa música.

Perante essa oração, nessas memórias emotivas e sonoras, que anuncio a estréia de um espaço adequado para se conversar sobre música, músicos e álbuns. A partir de quinta-feira, ao lado do amigo Arthur Malaspina, novo colaborador do blog, apresentaremos um álbum por semana, seja novo ou velho que merece – ou não – ser ouvido.

Dou boas vindas ao novo colaborador, esperando a presença de todos os leitores para conferir a nova coluna que estréia com o novo álbum duplo de Paulinho Moska, Muito / Pouco.

Encerro o sermão nas palavras de Éramos Carlos: Música, Santa Música, Ave Música, Tocai por nós.

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Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog que declarou sua paixão incondicional pela música. Aqui é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre livros, filmes, dvds, cds e, nessa semana, um dos movimentos mais antigos do homem: a música.


sábado, 24 de julho de 2010

Alta Fidelidade: Qual o preço de um download legalizado?


Qualquer mídia que se fale a respeito hoje em uma discussão sempre se divide entre os tradicionais, que a defenderão da maneira mais clássica e os tecnológicos que, mais por especulação, afirmam que sua concretude será extinta para uma integração digital completa.

Os livros se confrontam com os readers digitais, os CDs perdem espaço para as músicas lançadas diretamente na rede e os filmes indo do cinema para a tela do computador.

Porém, diferentemente da simples proporção, há um passo gigantesco de uma mídia a outra. O espaço para a pirataria é grande e a inércia de diversos órgãos responsáveis, até mesmo editora, gravadoras e produtoras, permitiram que o consumo do chamado material pirata circule aos milhões. Atire a primeira pedra quem nunca baixou um filme ou uma série para assistir.

É recente o surgimento de meios de assistir filmes, séries, de maneira legal pela internet. Lá fora, canais disponibilizam suas séries on line, infelizmente, ainda, com prazo para o expectador assistir. No Brasil, alguns canais, como a Rede Bandeirantes e o canal pago Fox, disponilizam oficialmente parte de seu conteúdo pela internet. E portais como o Terra criaram um espaço dedicado a fornecer conteúdo de graça a qualquer público, disponibilizando de filmes, documentários, a séries (recentemente o portal estreou a primeira temporada de Arquivo X, com um episódio por semana).

Em paralelo com o fornecimento gratuito de cultura, há sites que fornecem-a mediante pagamento. A empresa Saraiva desenvolveu um sistema de locação digital entitulado Saraiva Digital com esse intuíto. O usuário escolhe o filme pelo site, faz a compra pelo cartão, baixa o programa da rede e faz o download do filme, tendo a escolha de ou comprá-lo ou de alugar. O sistema utiliza-se de uma codificação que permite que o filme, ao ser baixado, funcione por 24 horas ou 48 horas, expirando após isso.

Com a chance de testar se o sistema funciona e ver como seria assistir uma produção de maneira legal – som e imagem seriam fieis ao DVD? – o blog fez o teste.

Os preços não são tão caros. Filmes de catálogo são encontrados por R$3,90 a R$4,90 e lançamentos a partir de R$6,90. Se pensarmos que algumas locadoras de cidades grandes ainda cobram um tanto caro o preço dos lançamentos, a mordomia de ver o filme sem o trabalho de sair de casa compensa.

O catálogo ainda não é tão vasto, mas tem aumentado. Buscando suprir não só os lançamentos – que já contam com a bombinha Alice No País das Maravilhas – como produções antiga – a primeira versão de Fúria de Titãs é um bom exemplo.

Infelizmente, o processo de compra é um dos primeiros problemas do sistema. Mesmo que a compra pelo cartão de crédito seja, normalmente, aprovada na hora, há uma certa demora para que você seja autorizado a baixar o filme.

No meu caso fiz a compra em uma promoção, alugue dois e pague um e até hoje recebi apenas autorização para baixar um filme. Fiz uma reclamação formal no site e obtive a resposta que o setor trabalharia para resolver o problema. Até o dado momento não resolveram. E um mês já se passou.

O programa necessário para baixar os filmes é um gigantesco problema a parte. Desde sua tela inicial de login apresenta falha e lentidão. Não estranhem se ele travar diversas vezes antes de entrar em sua tela de abertura, que apresenta os últimos filmes em catálogo.

Outra epopéia difícil é baixar o filme comprado. Se há um lado positivo, das produções virem com aproximadamente 3 gigabytes, e assim preservarem sua boa qualidade, é necessário ter boa banda larga – e paciência – para que o download se complete rapidamente.

É possível parar o download no meio e continuar depois. Mas, devido a uma falha no programa, seu filme pode sumir de sua lista, de repente. Obrigando-o a baixa-lo novamente.

Assistir a produção é a terceira via crucis realizada. De antemão, afirmo que o computador utilizado para tentar vê-la é uma excelente máquina, com uma vasta memória e bom processador.

O programa Saraiva Digital permite duas opções para exibir o filme. Dentro do próprio programa ou pelo Windows Mídia Player, com a última versão atualizada. Infelizmente, nem um nem outro reproduziu o filme comprado.

O reprodutor de vídeos do Saraiva Online ameaça o início da exibição, mas a tela fica preta. Os trailers do catalogo passavam sem problemas, significando que não havia problema com o reprodutor em si, mas sim com a chave que habilita a reprodução.

A solução foi ir ao Windows Mídia Player. Pedir uma atualização completa, esperar pela nova versão e dar play no filme que não leu. Novamente a chave de proteção não conseguia reproduzir o filme. O programa dizia não ser possível ler o formato, um arquivo .wmv, originário do próprio programa em questão.

O resultado final foi uma locação não assistida. Diversos problemas em baixar o filme e um respaldo zero da Saraiva em resolver meu problema com a segunda locação que nunca me foi disponibilizada.

Ainda que seja interessante um sistema legal que permite a locação de filmes em formato digital, chega a ser patético seu desempenho. Criando uma luta incapaz de ser vencida contra o dito material pirata que, em uma rápida busca virtual e com alguns cliques, são facilmente baixados.

A experiência com a Saraiva Virtual resultou-se em uma falha completa. E não é exclusiva, já que o sistema registra opinião de outros usuários e muitos reclamam da dificuldade de se baixar os filmes e das falhas do programa.

Sem dúvida a idéia é boa e conquistaria uma certa parcela de internautas, principalmente aqueles que buscam produções antigas, mas falha na concepção. Sua execução lenta é um convite a desistir e ou ir a locadora mais próxima ou ao site de downloads mais rápido e fazer sua seleção.

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O Blog O Que Dr. House Diria? Gostaria de esclarecer que não criou juízo de valor algum para a produção do texto em questão. Apenas analisou um sistema de reprodução legal de vídeos repleto de falhas em relação a facilidade de se encontrar o dito material pirata na internet. Em outras palavras, não estamos fazendo apologia a nada.

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Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog que, infelizmente, perdeu sua locação sem ver o filme alugado. Aqui é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre livros, filmes, dvds, cds e, nessa semana, o embate entre download legalizado e a pirataria.

sábado, 12 de junho de 2010

Alta Fidelidade: Meditações Sobre Spinoza e Eu



Quando estamos na infância, vivemos um mundo a parte. Um receptáculo colorido e diferente daquilo que perde a cor e se chama mundo adulto.

Após anos de crescimento que ficamos sensíveis e perceptíveis a diversos acontecimentos que passaram por nós naquela época e éramos inocentes ou bobos demais para compreender.

A cena da criança invadindo uma sala cheia de adultos é clássica. E a ação dos mesmos, barrando-a, dizendo que isso não era para ela, papo de adultos, também é a resposta mais comum.

Porém, engana-se quem pensa que no amadurecimento todos os significados caem como uma luva. E saímos gritando pelados, como Arquimedes: Eureka, eureka, eureka.

Amadurecimento vem em fases também. E, de repente, aquilo que não compreendíamos se resolve dentro de nós como um raio. O resultado dessa mudança é a somatória do que vivenciamos.

Lembro-me de uma cena específica de um livro que li. A personagem principal, leitora assídua de livros, comprara no sebo um exemplar de Lord Jim de Joseph Conrad. E nas primeiras páginas havia a assinatura do antigo dono dizendo que começou a ler o livro e não gostou, sendo, provavelmente, um dos piores da sua vida. A personagem se espantava pois, no final do livro, havia outra escritura do antigo dono. Dizendo que, anos depois, tentou reler a obra e ela se revelou como algo preciso.

Exponho a idéia de maturidade e do tempo que se revela dando nos a resposta porque há anos sofro uma espera que, enfim, chegou.

Eu fazia meu segundo cursinho pré-vestibular em uma escola diferenciada, com aulas de filosofia na grade. De lá sairia uma das professoras inesquecíveis de minha vida, Denise D´Incao, ou Dona Denise como costumava chamá-la.

Dona Denise era formada em filosofia. Era culta. Impossível não sentir prazer ao conversar com ela. O diálogo fluía, ela fazia boas colocações, citava filósofos te incitando a lê-los. É digna de admiração.

A história não me lembro bem. Lembro do que ela me disse. Estudávamos sobre os Pré-Socráticos e, em uma divagação sobre Deus, permanecemos diversos minutos falando sobre esse conceito. Confesso que nunca me importei fugir dos temas das aulas. Qualquer tema conversado em classe com ela era digno de conhecimento.

Então pensei em Deus e lhe perguntei, qual o filósofo que mais falou de Deus? Ela, em frente a minha mesa, ergueu os olhos pensativos, em silêncio. Mas respondeu, Spinoza. Leia Ética, dele.

Imediatamente, abri meu caderno para anotar, uma indicação assim não poderia ser perdida. Mas ela não havia terminado, mas leia só quando fizer vinte e cinco anos. Diante de minha cara de assombro, completou, é um daqueles textos que mudam sua vida, sua forma de pensar.

O relato aconteceu há seis anos atrás, eu tinha, então, dezenove anos. E achei injusto quebrar a regra, não seguir o conselho dado por Dona Denise. Então, esperei. A cada aniversário esperei, lembrando-me, vez ou outra, que aos vinte e cinco eu leria Spinoza.

Em vinte de maio completei meus vinte e cinco anos. E não quero entrar nos sentimentos naturais dessa época, fazer uma narrativa que relembre o passado e figure o presente. Foi a Ética que me veio a mente.

Depois de seis anos, eu poderia, enfim, seguir o conselho da mestra filósofa. E tenho aqui, em minhas mãos, uma edição do livro de Spinoza. O Qual desejo ler assim que possível.

Pergunto-me o que há nesse livro que, na visão dela, seria capaz de mudar a base de alguém. Que eu teria estrutura para compreendê-lo apenas agora e não seis anos atrás.

Sei apenas que a espera foi amarga mas deliciosa. Espera boba, sei disso. Mas não deixo de pensar que, ao ler o livro, eu perceba que, de fato, ele ainda não estava pronto para mim, ou vice-versa.

Dona Denise, segui seu conselho a risca e agora, aos vinte e cinco eu abro as palavras de Spinoza esperando que ele me diga o que a senhora tentou esconder de mim. E agradeço, imensamente toda a sabedoria que me deu em suas aulas. Elas permaneceram em mim.

Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog que, finalmente, lerá Espinoza. Aqui é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre livros, filmes, dvds, cds e, nessa semana, a compressão entre maturidade e livros.



sábado, 6 de março de 2010

Alta Fidelidade: Plagiar é Preciso


Há um verso na canção Do It, do cantor recifense Lenine, composta com Ivan Santos, cujos dizeres são uma síntese de um modo de vida: “Se não é, imite”.

Parece que tal estilo foi seguido a risca por algumas editoras brasileiras que, há certo tempo, vem realizando plágios descarados de traduções conhecidas e mudando sua autoria em um passe de mágica.

Talvez, para o leitor comum, a importância de uma boa tradução passe despercebida. Abre-se o livro, lê-se com bastante fruição e, em seu término, tecem elogios sobre a prosa de seu autor. Porém, entre as palavras originais e aquelas lida em sua língua, há uma ponte, muitas vezes invisível chamada tradutor.

Sua responsabilidade é bastante alta. Não basta apenas verter o original para a língua local. É necessário ter vasto conhecimento de ambas as línguas, para evitar erros de interpretação; realizar adaptações precisas de expressões idiomáticas; conhecimento abrangente sobre a obra do escritor; e a capacidade de, mesmo que em outra língua, deixar transparecer o estilo original do autor.

São diversas as teorias por trás do processo de tradução. Mas é um consenso que realizá-las nunca é um processo fácil. Demanda tempo, conhecimento com a obra, dedicação.

O leitor talvez nem suspeite do suor do tradutor para conseguir finalizar aquela obra e deixá-la a altura de seu original. Ainda mais quando as edições brasileiras constam na contra-capa, no máximo, o nome de seus tradutores e há edições que nem mesmo se dão a esse trabalho.

É evidente que leitor algum é obrigado, de antemão, a conhecer e compreender o funcionamento de uma tradução. Tenho esse conhecimento porque estudo na área de Letras.

Tive um choque quando descobri a importância de uma boa tradução e, desde que adentrei no curso, há cinco anos, agora procuro, além de uma edição com um bom preço, se tal tradução é bem feita e confiável.

Todos esses argumentos de uma boa tradução se chocam com uma realidade nefasta que algumas editoras brasileiras vêm realizando: a cópia de uma tradução. O roubo de um trabalho suado, sem pagar nada por isso, e a substituição do nome do tradutor original por um nome fictício que, muitas vezes, chega a parecer excêntrico de tão diferente.

Há certo tempo acompanhei de perto o nascimento dessa descoberta. Foi através da tradutora Denise Bottmann que, junto com um grupo de tradudores, suspeitaram dessa problemática ao notar que certas traduções da editora Martin Claret não só pareciam muito com traduções antigas de renome como apresentavam, vejam só, os mesmos erros de interpretação.

Eu mesmo, ao lado de Bottmann, cotejei diversos livros da Martin com edições antigas de outras editoras, comprovando o plágio indevido. O uso do texto era extremamente fiel, a exceção de um artigo indefinido aqui, uma mudança temporal de verbo lá, para simular que, aparentemente, tais traduções eram distintas.

Com observação e pesquisa foram surgindo não só mais verificações de plágio da mesma editora, como de outras. Talvez a única que tenha saído-se bem da situação foi a editora L&PM que não só assumiu os erros de seus plágios, tirando os livros de catálogo, como agora tem contratado um time de tradutores para suas novas publicações (foi a pedido dos leitores que a editora lançou uma tradução nova de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen). (Cabe aqui uma correção posterior, apontada por Denise Bottmann, a qual agradeço, nos comentários abaixo do texto. O que de fato ocorreu com a editora L&PM foi a compra de traduções da Nova Cultural, esta sim, a responsável pelos plágios. A L&PM chegou a mover um processo contra a editora devido a isso.)

Infelizmente, tal atitude não é vista com a freqüência que gostaríamos de ver. Mesmo assumindo alguns de seus plágios, até hoje a editora Martin Claret não tirou das livrarias suas edições. Desde que soube de tais acontecimentos nunca mais comprei uma publicação dela. Cheguei a escrever a eles, pedindo uma troca de meus exemplares plagiados por outros, autênticos, edições de bolso com livros brasileiros, para ter a certeza de que não seria enganado. Em um primeiro contato a editora aceitou a troca, em que enviariam os exemplares escolhido por mim e receberiam os meus, com a tradução plageada de volta. Mas nunca passou disso. Aguardo até hoje, após mais de um ano, a chegada de meus livros para enviar a eles de volta os plagiados. Honestamente, eu não quero tais edições publicadas de má fé.

Recentemente, os plágios vieram a tona na impressa por conta de um processo que a editora Landmark lançou contra Denise Bottmann e Raquel Sallaberry, do blog Jane Austen em português, alegando calunias difamatórias.

Em seu blog Não Gosto de Plágio, Denise apresentou cotejos de duas edições da editora, Morro dos Ventos Uivantes e Persuasão, que seriam plágios de traduções já realizadas há muito tempo. A ação, além da tal calúnia que cai por terra pelos cotejos que comprovam o plágio, exigia que o blog da tradutora saísse do ar.

É lamentável a atitude da Editora Landmark. Seu trabalho lançando edições biligue de obras consagradas poderia ser exemplar. Mas é destruído quando, não só realiza-se plágios de traduções quando ainda cria-se um processo alegando calúnia, em vez de assumir os erros e tentar – por que não? – buscar alternativas e – seria ótimo – uma nova tradução. Em tempo, há calunias que falam mais alto que fatos comprovados em cotejos?

Se há um lado benéfico nos plágios da Landmark, digo, no processo de calúnia contra Denise e Raquel, é trazer de maneira definitiva o assunto nas páginas dos jornais, fazendo com que aqueles que desconheciam tais plágios, comecem a pesquisar a respeito. E a repercussão tem gerado efeito. Amigos que tem apenas a paixão pela leitura, sem desconhecer a tal importância da tradução que mencionei acima, tem comentado comigo a respeito das notícias do processo. E eu conto-lhes, então, que a história não começou agora.

A atitude da Landmark é um ponto – um grande ponto – para que os olhos se voltem para as atitudes ilícitas de diversas editoras. Que fazem de maneira silenciosa um processo ilegal esperando que ninguém desconfie. Tal ação deixará não só a impressa, mas como os leitores mais atenciosos e munidos contra os plágios, realizando certa movimentação contra tais editoras.

Uma delas já está disponível na internet, vinda de um quarteto Ás da tradução no país: Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivone Benedetti e Ivo Barroso que, juntos, lançaram um manifesto em repúdio a editora Landmark. O manifesto se encontra em Apoio Denise, e os dispostos a subscrevê-lo encontram o link do abaixo-assinado no próprio site ou diretamente em http://www.petitiononline.com/mod_perl/signed.cgi?Bottmann&1.

Felizmente, nem tudo é um inferno de Dante. Há editoras no Brasil com grande competência, que realizam trabalhos incríveis na produção de seus livros, bem como em suas traduções. Dentre elas, recomendo três: a já citada L&PM, por ter assumido seu erro e dado a volta por cima, contratando tradutores e apresentando novas traduções de obras consagradas - algo sempre positivo, a pluraridade de traduções - e por aumentarem mais e mais seu bom e barato catálogo de bolso; A editora Cosac & Naify por realizar um processo gráfico incrível em seus livros, repleto de cuidado não só visual, como também em suas traduções, apresentando grandes clássicos inéditos até então; e a Editora 34, que traduz muito material vindo da Rússia, língua de dificil tradução, mas vertida pelos tradutores da editora com competência. Sem mencionar que os projetos gráficos da editora também tem estilo e certos autores - como Dostoiévski - possuem um padrão próprio em sua coleção.

É de se esperar que haverá muito desenrolar nessa história. Mas é certo que, ao final dela, certas editoras brasileiras deixarão de ser reles imitadores e passarão ou a serem mais autenticas ou desaparecerão.


O blog O Que Dr. House Diria? apoia o manifesto e desde o início acompanha a tradutora Denise Bottmann na problemática dos plágios no mercado editorial brasileiro.

Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog que hoje apontou um problema grave no mercado editoral brasileiro. Aqui é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre livros, filmes, dvds, cds e, nessa semana, os plágios.


sábado, 27 de fevereiro de 2010

Alta Fidelidade: Trabalhando Em Um Sonho


Normalmente, tenho dedicado o espaço dessa coluna, algo que me dá imenso prazer em produzir, a comentários e exposições filosóficas voltadas a cultura em geral. Porém, certas vezes, ao imaginar argumentos para preenchê-la, é impossível não ser invadido por memórias e lembranças.

Um único momento é capaz de ser a fagulha para um longo texto, um despertar de sensações imateriais guardadas na memória. Refletir sobre esse aspecto é arenoso. Descuidar-se momentaneamente transforma um bom texto em bobagem reflexiva com abstração demais e conteúdo de menos.

Assim, é difícil, pela primeira vez, questionar um conceito que todos carregam em si, mas que, muitas vezes, é um fragmento mais frágil que a memória. A idéia dos sonhos. E entendam nessa palavra como a tradução daquilo que desejamos e planejamos durante muito tempo para nós.

A imagem da criança fazendo rabiscos com lápis de cor em um papel em branco, dizendo que tal desenho é o desejo de seu futuro, é bastante comum. Fazemos isso quando crianças e expomos sonhos inocentes. A maneira que crescemos, ou deixamos que os sonhos sejam limados ou jogamos os dados, apostando em uma intuição, aparentemente mais cara, mas que, se realizada, será mais plena.

Lembro-me de uma frase do compositor Paulinho Moska afirmando que “sonhos são como deuses, quando não se acredita neles deixam de existir”. Assim, observo que mesmo aqueles que estão longe de seus sonhos, guardam-nos em uma pequena caixa, com medo de que eles deixem de existir.

Dizem que a impulsividade dos sonhos é inversa a sensação de conforto. Sabemos que, quando expostos a um perigo, nossa reação primordial é se esconder, ficar a margem de um apoio. É assim com a matéria dos sonhos. O preço para realizá-los é alto, nunca é de graça, é necessário um trabalho extenso. Quando realizado, a mais valia é impossível de ser descrita.

Estamos em uma época em que vivemos a margem de caminhos. Opções de escolha não faltam, e isso observo com atenção nas pessoas que me cercam. Muitas vezes, vejo-os optando pelas alternativas mais confortáveis, mesmo que eu saiba que, internamente, as escolhas não seriam essas. Que os tais sonhos estão amassados em algum papel, jogados dentro de alguma gaveta na escrivaninha.

Dentro de minha mochila carrego sempre um amontoado de papéis. Alguns são rabiscos e outros são idéias completas que começo a concretizar. Estou trabalhando em meus sonhos. E a corda bamba que eles podem gerar, sem saber se serão sucesso ou fracasso é deveras assustadora. Mas, se eu os negasse, seria como se parte de mim vivesse sem expressão.

Sei que tais palavras soam bastante banais. Mas só recentemente descobri que, tratando-se da construção de nossos sonhos, somente nós somos capazes de fazê-los. O apoio de outros sempre tem limites.

Quando isso acontecer, tranque-se em seu quarto, pegue folhas em branco e deixe suas idéias te guiarem. Não importa quão impossíveis seus sonhos possam parecer, a construção é que define tudo, no final. Acrescidas daquela sensação indefinível chamada intuição.

O título que completa esse texto foi retirado de um álbum do cantor Bruce Springsteen, lançado ano passado, seu décimo sexto álbum em estúdio, Working On a Dream. Me impressiona que aos cinqüenta anos de idade, com meio século de vida, e uma carreira incrível e estável, o compositor ainda conceda espaço para trabalhar seus sonhos. Que mesmo atingido o que muitos chamam de completude da vida, ainda é inquieto e almeja mais, construções maiores.

Hoje, tenho a consciência de meus desejos e, aos poucos, nascem forças para realizá-los. Como Sprinsteen, estou trabalhando em um sonho. E, quando crescer, quero ser como ele. Alguém que nunca para e sempre encontra mágica no ar mesmo quando ao seu redor não há nenhum rítmo.


Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog que tem trabalhado em seus sonhos como nunca. Aqui é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre livros, filmes, dvds, cds e, nessa semana, sobre nossos sonhos.

Semana que vem a coluna cede espaço para a coluna Preliminar, com uma avaliação sobre o que esperar de uma grande estréia cinematográfica.



sábado, 20 de fevereiro de 2010

Alta Fidelidade: Um Homem e Seus Livros


ao prazer da leitura



A relação entre escritores e a vasta literatura dos livros é um elo bastante intrínseco. Há diversas frases famosas e célebres que contemplam essa afirmação. Muitas vezes, deslocadas de seus contextos, tais citações chegam a se tornar censo comum, impresso em revistas e em qualquer local que queira dar a evidente importância a esse artefato tão múltiplo quanto o livro.

Exemplos de palavras belas não faltam. Monteiro Lobato, nosso literato mais conhecido pela faceta juvenil e pela sobrancelha grossa, afirmou que um país se faz com homens e livros. Já o argentino Jorge Luis Borges, que terminou sua vida cego, definiu-os como uma extensão da memória e da imaginação.

É bastante evidente que os livros fazem parte da vida de qualquer pessoa. Aqueles que ainda não aprenderam o alfabeto, os admiram pelas capas ou a procura de figuras. E, conforme somos apresentados as letras, as frases se aumentam, as páginas perdem os desenhos e as palavras ganham complexidade. Ou amamos os livros ou deixamo-os.

Aos que se apaixonam por tal ofício, sempre aberto ao que uma leitura pode proporcionar, é comum, com o tempo, adquirir sua lista pessoal de favoritos. Livros que, muitas vezes, são comprados até em duplicada por causa de uma edição especial ou de uma nova tradução. Histórias que forão lidas e que tocaram de tal forma que geram uma releitura quase que obrigatória. Dando novas visões da mesma idéia e aquela sensação única de levar um soco no estômago.

Não me recordo de quando escolhi uma estante para ser aquela destinada a livros e nem quando de um, se tornaram dez, que viraram cem. Tenho a vaga sensação que a idéia de ler surgiu na mesma época de escrever ficções e rabiscar poemas. Uma ação levou a outra facilmente.

A leitura me manteve mais inspirado e compor narrativas me dava gosto por ler mais. Ainda que eu, durante esse tempo, sempre tenha sido uma ovelha um tanto desgarrada da leitura. Tenho momentos intensos em que devoro livros e outros em que passo meses com poucas linhas.

Porém, nunca estive tão admirado com a força dos livros como estou quanto hoje. Meu campo de leitura é bastante variado. Alterno ficções, biografias, livros técnicos, lidos de maneira diferente mas, normalmente, com o mesmo prazer. Tirando aquela lista de leitura que sempre aumenta por conta de suas andanças pelas livrarias e por indicações de amigos.

O fato é que até hoje embora tenha lido muito livros, nunca fui capaz de reler nenhum. Nunca senti aquela sensação de rever um velho amigo e saber que, mesmo aparentemente igual, ele guardava idéias que eu, ainda, não tinha observado.

Por um lado tal idéia me dá orgulho, mas por outro é bastante besta de minha parte. E causa certa comoção nos amigos que leram milhares de vezes seus livros preferidos – aqueles que figuram na lista de melhores livros que li – e ficam surpresos que nunca reli os meus melhores.

Eis que fiz uma breve reflexão sobre isso e conclui que estou pronto. Pronto para, novamente, encarar aquelas leituras que me deixaram de outra maneira, diferente de quando entrei. Livros que tenho frases guardadas na cabeça, usando-os como citação, filosofia de vida e que chegam a arrepiar quando imaginamos a imensidão da história perante nossa pequeneza.

O impulso da releitura não surgiu a tona. A partir da próxima semana, abro um espaço definitivo para a publicação de análises literárias no blog, espaço que surgia de vez em quando mas que é necessário ser definitivo.

Além de ser argumento válido para sempre estar com um livro na mão, tenho mais uma razão para reler os favoritos, minha lista de melhores. Títulos que agora compartilho com vocês, não por ordem de melhor ou preferência. Mas pela cronologia de leitura, do que posso me lembrar. Aqueles que foram definitivos, guardados com muito carinho. Sendo um marco, tornando-se fragmento de idéias que me moldaram ou dando vazão a sentimentos, impressões e estilos literários.


A Confraria (John Grisham); Rios Vermelhos (Jean-Christophe Grange); Alta Fidelidade (Nick Hornby); O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde); Lolita (Vladimir Nabokov); O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald); Dom Casmurro (Machado de Assis); Sonhos do Bunker Hill e Pergunte Ao Pó (John Fante); A Insustentável Leveza Do Ser (Milan Kundera); O Silêncio da Chuva (Luiz Alfredo Garcia-Roza); O Caso Morel (Rubem Fonseca); Dalia Negra (James Ellroy); Cem Anos de Solidão (Gabriel Garcia Marquez); Hamlet (William Shakespeare); Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (Hilda Hilst).



Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog cuja pilha de livros a ler aumenta a cada dia. Aqui é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre livros, filmes, dvds, cds e, nessa semana, sobre aqueles livros que se tornam especial para nós.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Alta Fidelidade: Vale Quanto Pesa


um texto apaixonado sobre shows musicais


Há alguns anos, anualmente, o Brasil vem recebendo diversos shows internacionais. O leque de opções é bastante variável, indo desde bandas menos desconhecidas, que executam suas performances em casas de show menores, a grande astros como Elton John e Madonna.

Se há um ponto em comum entre todos esses eventos, os altos preços são aquilo que os une. É sempre dedutível que uma atração internacional venha com preços estratosféricos no país, trazendo a tona uma das principais perguntas a respeito: valem a pena?

Talvez o primeiro ponto a refletir é a respeito do que a banda em questão significa a você. Uma hora ou outra, é possível que, ao menos, uma de suas bandas preferidas venha para o país, portanto, é necessário estar mais ou menos preparado para isso.

Os preços normalmente são salgados e, para quem não pode comprar direto na bilheteria em São Paulo, há taxas e taxas que, supostamente, são para favorecer o cliente. Não que eu veja vantagem em pagar mais quarenta reais pelo meu ingresso que já possui um preço caro. Porém é pagar ou não tê-lo.

Quem ainda mora longe da cidade e tem dificuldades em transitar por ela por não conhecê-la, acaba optando pelas excursões. Um preço barato em relação a passagens individuais e são convidativos para quem está no interior e encontra um grupo para acompanhá-lo. Assim, há um meio para ir e para voltar mais seguro do que vagar por uma ou outra cidade desconhecida.

Colocando esses dois pequenos critérios na ponta do lápis, é possível ter uma idéia se tal ou aquela banda merece ter o show assistido. Tal critério varia de acordo com cada um. Porém, em um amplo aspecto geral, sempre que surgir a dúvida se ir ou não no show de sua banda preferida, mesmo que com um preço um pouco salgado, não tenha dúvida, sempre vale quanto pesa.

Os preços altos sempre são justificados com os altos cachês exigidos pela banda. Mas compensam a sensação única de estar ao vivo com músicos que você aprecia. Valendo-se que eles não são do Brasil, o contato pode ser, de fato, a primeira e última vez. Mesmo que você os veja quase a distancia, em pequenos pontos no palco, a sensação de estar lá, ouvindo a música que produzem ao vivo, ao lado de um coro que te envolve, produzindo energia e levando até os músicos, provoca um sentimento impossível de ser explicado. Nessa hora, o preço já não conta mais.

Tais shows, sempre proporcionado a uma multidão de pessoas, são espetáculos únicos. Em lugares em que a banda toca raramente é possível sentir sua dedicação redobrada em dar toda sua energia. A boa produção que os envolve, incansáveis jogos de luz, um telão para quem ficou mais distante acompanhar, faz com que a cada canção você se sinta mais a vontade e esqueça as horas e horas de espera que ficou na fila e depois na pista esperando em bom lugar.

No fim da noite, o cansaço, o eco ensurdecedor nos ouvidos, que quase exigem um pouco mais de música, comprovam que a noite musical foi deveras incrível. Única. E que o preço por isso tudo pode ter sido alto monetariamente falando, mas que será um daqueles instantes que serão levados e lembrados por toda vida. Guardado no melhor lugar da memória.

Assim, não haverá dinheiro no mundo que pague e podemos confirmar que sim, alguns espetáculos valem o quanto pesam.



Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog que hoje assistirá o show do Metallica em São Paulo e assistiu, ano passado, o show da banda Kiss. Aqui é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre livros, filmes, dvds, cds e, nessa semana, sobre a sensação de estar em um show ao vivo.

Semana que vem a coluna entra em recesso para a coluna Preliminar.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Alta Fidelidade: Dissidências da Fama e o Movimento Clooney


"Quando você está num estágio da sua carreira em que as pessoas conhecem você, não é mais preciso se fazer conhecer. Não quero ser mais famoso".
George Clooney

É evidente que todo pais tenha seu contingente de personalidades famosas. Sejam atores, músicos, políticos icônicos ou aquelas que mesmo sem nenhum talento aparecem na televisão. Porém, é impossível não conhecer certas celebridades que, de uma maneira ou outra, configuram-se em uma constelação maior.

Não pelo fato impositivo de que são melhores ou maiores do que aquela. Mas devido ao alto grau de exposição que não só seu país, como a mídia mundial realiza ao seu redor. Falemos dos astros de Hollywood, que desde sua criação são um caso a parte nessa constelação, onde muitas vezes o talento é proporcional ao número de escândalos.

Nesse distrito da cidade de Los Angeles, todos os seus personagens conquistam grande espaço mundial. Os filmes americanos são vendidos para todo mundo e, assim, seus atores são expostos em revistas, jornais e ganham espaço cativo no coração daquela raça de repórteres fofoqueiros que sempre tem um furo exclusivo sobre um novo casal que se apaixona.

É um chavão dizer que fama tem seu preço, ainda que seja uma forte afirmativa. É necessário saber lidar com aquilo que fazem de você para fugir dessa bomba atômica. Acompanhando certas entrevistas que podemos perceber que muitos não gostam do reino podre de Hollywood, apesar de trabalharem para ele. E vivem, a sua maneira, distante. Cumprem sua obrigação do trabalho, mais evitam festas com puxa sacos e fotógrafos ansiosos pelo seu quinhão.

Provavelmente, é difícil acompanhar o movimento de trabalhar em um lugar com alta exposição mas não estar dentro dele. É necessário cuidado para não se perder demais. Afinal, muitos já disseram que a fama é uma fogueira das vaidades e pisar no calo errado pode ser perigoso. Muitas vezes um bom desempenho na carreira ajuda a manter a popularidade mesmo longe das notícias amargas dos tablóides e das colunas sociais.

Eis que há algumas semanas atrás, um dos maiores astros de Hollywood, George Clooney, anunciou seu afastamento de entrevistas coletivas e eventos diversos, que não sejam os lançamentos de seus filmes. Sua carreira sólida, entre ator e diretor, é tão consistente que seu ato honesto, de maneira alguma, arranha sua imagem.

Clooney apresentava sinais de seu afastamento há tempos. Consciente de que boa parte de seu sucesso inicial vinha de sua beleza, declarou mais de uma vez que buscava planos alternativos para continuar trabalhando quando as portas se fechassem para ele, por não ter mais um rostinho bonito.

Assim, investiu em uma carreira de produtor e também arriscou a dirigir alguns filmes, sendo que um concorreu ao Oscar. Em sua carreira de ator, dividiu-se entre filmes voltados ao público em geral, arrecadando boa bilheteria, e projetos mais sérios, um deles lhe valendo o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Mostrando que além daquele rostinho bonito, há um profissional competente e um ator sério.

É impossível não ver o cansaço de quem, desde sua estréia em Plantão Médico, é visto como um dos homens mais bonitos em diversas listas pelo mundo. Hoje, após anos de alta rotatividade nas câmeras, em eventos e nas fofocas, há o cansaço de se envolver nesse mundo. Cansado dos pedidos de casamento em cada uma de suas coletivas, das perguntas engraçadinhas que não são nada esclarecedoras e estragam coletivas que poderiam ser produtivas (Casos que aconteceram na divulgação de seu último filme, Amor Sem Escalas, que estreou ontem no circuito nacional).

Clooney deseja falar e ser ouvido de maneira séria. Conquistou, em definitivo, seu espaço, para deixar esse burburinho, que muitos atores gostam e diversos críticos têm o prazer de citar - o famoso glamour de Hollywood - para trás. Colocando todo seu sucesso, a tal fama, ao seu favor. E agora trabalhando com aquilo que conquistou e afastando-se de tudo que há de ruim dentro da fogueira. Seu desejo é falar para um público seleto que o ouvirá com mais atenção.

A decisão de George Clooney com certeza marcará uma tendência daqui para frente em Hollywood. De atores, diretores, produtores centrados em dar um trabalho mais autentico para o público, do que ficar envolto em um meio repleto de valores escusos e vaidade. Assim, ganha o público por um trabalho com mais dedicação e os próprios atores cuja vida pessoal, com quem ele sai ou deixa de sair, fica para trás, tornando-se o que deveria ser desde o início: nada significativo.


Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog onde é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Aqui pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre livros, filmes, dvds, cds e, nessa semana, sobre a fama e suas dissidências. Fiquem ligados, todos os sábados uma nova coluna, exceto no primeiro sábado em que esse espaço é cedido para a coluna Preliminar que analisa filmes esperados pelo público.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Alta Fidelidade Especial: Polindo o Globo de Ouro


Domingo passado - No Brasil, na noite de Domingo para Segunda-Feira - ocorreu nos Estados Unidos uma das grandes premiações do cinema e da televisão americana, conhecida como uma prévia daquilo que se pode ver no Oscar, aquele prêmio que qualquer um, qualquer um mesmo, conhece como o maior prêmio do cinema.

Durante a exibição do Globo de Ouro 2010, diversos canais e sites fizeram sua programação. Alguns críticos comentaram a exibição no twitter, outros escreveram suas opiniões no jornal diário impresso no dia seguinte e críticos especializados, como é de costume, devem ter soltado bobagens entre o cavanhaque sempre bem aparado de Rubens Ewald Filho e a coleção de óculos horrendos de Jose Wilker.

Escrever mais um texto mapeando a premiação e apontando seus erros e acertos, seria, de certa forma, redundante. E somaria mais um para a compilação do Globo de Ouro de 2010.
Para quem não assiste de imediato as produções, ainda mais quando poucas estrearam no país, e tem o costume de ver séries somente quando elas fecham uma temporada, é, de fato, uma bobagem debruçar-se sobre a premiação como um todo.

Dessa maneira, meus comentários específicos sobre o Globo de Ouro de 2010 seguem nesse parágrafo. É com um grande sorriso que comemoro os dois prêmios para a série Dexter. O ator Michael C. Hall há muito tempo – desde Six Feet Under – merecia um prêmio por sua - sempre - competente performance e o recebeu no auge, em uma das melhores temporadas da série.

A parte dos comentários sobre as premiações, foco a atenção sobre outro aspecto, talvez mais abstrato, a respeito do critério de escolha e seleção dos vencedores. É lamentável que o -dito - termômetro para o Oscar tenha cometido uma série de pequenos absurdos em sua entrega de prêmios. Absurdos que, até então, estavam sendo dignos apenas dos últimos anos do Oscar.

Da mesma maneira que o famoso careca dourado, o Globo de Ouro, aparentemente, partiu de uma análise bastante subjetiva para a escolha dos seus vencedores no último domingo, em vez de seguir a linha mais óbvia: a qualidade acima de todas as coisas.

Em notícia publicada pelo site Omelete, o dvd da comédia Se Beber, Não Case é anunciado como uma das comédias mais vendidas no ano passado. Curioso observar, portanto, que tal produção recebeu o prêmio de melhor filme Comédia ou Musical. Porém, em minha opinião de crítico, a produção não era a melhor da lista e nem se quer o melhor dos três últimos filmes do diretor.

É um bom exemplo para aplicar o quesito da tendência. Pensa-se que tal produção por ter uma alta venda de dvds seja incrível e, logo, digna de uma premiação. Correto? Bobagem. Utilizar tal alicerce para premiar uma produção gera gritantes espaços desnivelados onde, aparentemente, não há prioridade em se eleger uma produção por seus aspectos qualitativos. Em um exemplo rápido, é o mesmo que premiar uma animação inferior as da Pixar por vender mais bonequinhos ou lancheiras escolares.

Tal tendência estranha também se estendeu sobre o maior prêmio da noite, o melhor filme dramático. Ainda que alguns possam reclamar quanto ao prêmio de melhor direção para James Cameron – inclue-se aqui os fãs de Tarantino – é inegável o apuro na direção de Avatar. Porém, apontar a mesma produção como a melhor, quando dois concorrentes conquistaram público e critica com maiores critérios, torna-se estranho. Em resumo, é de se estranhar que Avatar ganhe um prêmio de Bastardos Inglórios, uma produção mais rica, com um roteiro mais articulado, uma boa edição não-linear e com boas atuações (A comparação fixa-se nos Bastardos por que Amor Sem Escalas ainda não estreou no Brasil).

É perceptível que a premiação seguiu a tendencia do público, que vem lotando as salas de todo o mundo para assistir a intensa produção de Cameron. Não necessariamente colocaram olhos críticos sobre os indicados para selecionar o melhor no aspecto cinematográfico, usufruindo de toda técnica, estilo e afins que o cinema pode proporcionar.


Cabe ressaltar que não estou, de maneira alguma, rechaçando a boa produção de James Cameron. Mas sim estabelecendo uma crítica a respeito daqueles que elegem os melhores em uma premiação e de como tal aspecto, que já é subjetivo, pode se tornar ainda mais quando falta certa objetividade.

Se não, da maneira que a premiação caminha, em breve a votação será aberta para o público. E não mais para esse time seleto que, supostamente, tem mais senso crítico em votar do que o subestimado público.

Avatar, a gigantesca produção de James Cameron é um bom filme. Se não o melhor do ano passado, o maior. Mas é inegável que, muito além de um visual impecável, o filme possui certos defeitos. Premiá-lo apenas por um critério, é, na minha visão, ficar cego de toda amplitude da produção.

Façamos essa suposição: vislumbrem todo o aspecto visual criado por Cameron na mão de um cineasta como Peter Jackson, que trouxe as telas o conceito de O Senhor dos Anéis sem perder a magia e a força do enredo. Imaginem se ambos trabalhassem lado a lado, Cameron apaixonado por seus efeitos revolucionários e Jackson dando um apuro melhor no roteiro e amarrando-o melhor.

Reflitam sobre essa idéia e tentem compreender aquilo que chamo de um bom critério de avaliação. Um critério que, mesmo que subjetivamente, é capaz de ir além da paixão cinematográfica e analisar camada por camada de uma produção para, por fim, angaria-la com o premio máximo da noite.

Alta Fidelidade, a coluna semanal do criador desse blog onde é possível falar abertamente sobre alguns temas sem que exija uma resenha para tal. Aqui pretende-se abordar todo o tipo de assunto cultural, seja ele sobre livros, filmes, dvds, cds e mais. Fiquem ligados, todos os sábados uma nova coluna, exceto no primeiro sábado em que esse espaço é cedido para a coluna Preliminar que analisa filmes esperados pelo público.