quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Demolidor - Versão do Diretor

(Daredevil, 2003)
Diretor: Mark Steven Johnson 
Elenco: Ben Affleck, Jennifer Garner, Michael Clarke Duncan, Colin Farrell, Jon Favreau, Joe Pantoliano

Nos primeiro minutos de um documentário, que acompanha o primeiro disco desta versão de diretor, um dos editores faz comentários a respeito de sua metragem. Diz que para o lançamento do filme a opção foi reduzir um pouco da ideia original, deixando mais ágil e com mais cenas de ação, diferentemente da ideia do diretor, Mark Steve Johnson, que procurava algo mais denso e fluído, com momentos para explicações e um pouco menos de ação.

Esse pequeno trecho simboliza a diferença entre um editor pago para realizar um filme blockbuster sem se importar com sua qualidade em detrimento a outros que tentam, mesmo em filme neste formato, manter uma base narrativa.

Demolidor foi a primeira adaptação de quadrinhos a ser um sub-produto dos sucessos anteriores. Pouco dinheiro foi investido no projeto, cuja missão primordial era um arrecadamento médio. Sem mais ganas, o resultado desse pensamento se tornou nada promissor. O descompasso é tão claro que o fraco diretor lançou sua própria edição do filme, com minutos a mais, tentando melhorar a fraca história e recuperar um pouco de sua imagem perante os fãs de quadrinhos.

Mesmo trabalhando com um material bruto inexpressivo, seu trabalho tem um ganho positivo em relação ao original, mas nada excepcional. Os erros desenvolvidos na trama estão concentrados em sua estrutura. Nenhuma edição poderia salva-la.

A começar pela obtusa escolha do elenco. Como colocar o gordinho Ben Aflleck para fazer o ágil demolidor quando, por ator cogitado na época, Matt Damon seria mais indicado para o papel até fisicamente. Sem deixar de lado excessos de liberdade poética transformando o rei do crime em negro e um patético Mercenário, grande vilão do Homem Sem Medo, em um patético personagem nas mãos de Collin Farrell, que despontou em um filme de Joel Schumacher e, depois de entregar mais uma atuação competente, vem desapontando desde então.

Com um pouco mais de duas horas de duração, a nova edição deixa a trama mais explica, tentando se aprofundar no drama de Matt Murdock. Mas a falta de credibilidade que Affleck passa, de um cego canastrão, não dá espaço para que compreenda-se seu heroísmo.

É lamentário que um personagem tão excelente como Demolidor tenha sido o escolhido para ser o primeiro filme B de quadrinhos, elemento parecido que aconteceria com Quarteto Fantástico mas, dessa vez, voltado ao entretenimento familiar.

Murdock é o heroi que possui uma das carreiras mais estáveis no quadrinho, com sagas memoráveis, além de ser carismático. Nas telas virou uma mistura insossa de senso comum e de atores mal selecionado, que culminam na Electra Natchos de Jennifer Garner.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Irresistível Paixão

(Out of Sight, 1998)
Diretor: Steven Soderbergh
Elenco: George Clooney, Jennifer Lopez, Ving Rhames, Catherine Keener, Dennis Farina, Steve Zahn

Um multi-astro é aquele que, em determinado momento, resolve tentar outros movimentos para sua carreira e abrir novas oportunidades. Sempre que um cantor intenta estrelar um filme, a recepção é receosa, principalmente porque, boa parte dos críticos, torce para que o filme se torne um fracasso.

A cantora Jennifer Lopez é uma daquelas que não desistiu e, ainda hoje, participa de algumas produções. Sua base são filmes românticos cheios de açucar, mas já se arriscou no terror, dramas densos e protagonizou, ao lado Ben Affleck, um dos maiores fracassos de bilheteria de todos os tempos. Diante dessa pequena carreira, que muitos poderiam denegrir como duvidosa, somente Steve Soderbergh seria capaz de reuni-la com um eterno galã para apresentar uma história marginal sobre o amor. 

Baseado na obra de Elmore Leonard - prolífico escritor policial, com filmes e séries adaptadas - a história promove o acaso e encontro entre um bandido em fuga e uma agente penitenciaria que estava no local. A narrativa de Irresistível Paixão - realizada antes do hype em cima de Soderbergh - dialoga bem com um estilo alternativo de cinema sem perder a narrativa sem floreios de Leonard. George Clooney está perfeito como George Clooney, o sexy ladrão sem escrúpulos que não resiste a agente penitenciaria Karen Sisco, em uma trama que, ao colocar personagens em lado opostos da lei, exemplifica que é possível encontrar o amor em qualquer lugar.

A estranheza é um dos elementos centrais da história. O amor que surge de um lugar estranho e que, mesmo assim, produz encantamento por sua condução, pelo acaso bem inserido na história. Os diálogos merecem um destaque a parte, explicitando o estilo de produção que, além das imagens, pede pela atenção das palavras. São doses de ironia bem calculadas, declarações de amor em poucas palavras. Dando-nos uma breve dimensão de como o autor Leonard trabalha suas personagens e situações.

 Soderbergh  utiliza-se do corte de cenas e dos espaçamentos temporais para dar maior agilidade a trama, que não tem medo de utilizar os datados efeitos de imagem congelada para destacar situações de limite. Caminhando do passado ao presente, explicando a motivação das personagens e aprofundando as relações.

Desenvolvendo-se em um ambiente possivelmente hostil, entre diálogos ferinos e uma edição veloz, uma história de amor que beira a marginalidade pelas personagens nada elevadas mas que, como a maioria das história de amor, são encantadoras.



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Bel Ami - O Sedutor

(Bel Ami, 2011)
Diretor: Declan Donnellan, Nick Ormerod
Elenco: Robert Pattinson, Uma Thurman, Natalia Tena, Christina Ricci, Colm Meaney, Kristin Scott Thomas

O francês Guy de Maupassant é um dos maiores escritores mundiais. Trabalhou com diversos gêneros artísticos, mas se consagrou no romance e nos contos. Sua temática variada sempre aprofundava-se na psicologia das personagens, esboçando traços naturalistas sem perder o viço para realizar críticas contra sua época.

Baseado em romance escrito em 1885, Bel Ami, é uma mordaz crítica a sua sociedade. Retratando a vida de Georges Duroy, um ex-soldado de origens simples que procura ascendência social em Paris, aproveitando-se de seu único bem, a beleza, para conquistar mulheres e obter favores.

A trama universaliza a ideia de que nem sempre é necessário ter uma vocação para conseguir um status favorável. Demonstrando que a beleza e a sedução pode ser a moeda para, pouco a pouco, crescer em uma sociedade movida por aparência. Todas as relações desenvolvidas na história são dúbias, promovidas por intenções não genuínas ou excusas. Não há personagem que saia incólume de manter um segredo para manter sua posição de prestígio conquistada.

O excesso de laços duplos faz a trama complicada por não ser capaz de explorar com sabedoria o lado sedutor da personagem e, ao mesmo tempo, sua consciência de ser um jovem inseguro que, ainda assim, consegue subir na vida a custa de favores. A roteirista Rachel Bennette fez da obra multifacetada de Maupassant uma pequena história de intrigas, falhando na compreensão de seu novelo bem costurado.

Fora da saga dos vampiros, Robbert Pattison apresenta um papel romântico e amargurado. Ainda é cedo para afirmar se o ator possui escopo dramático, embora demonstre com eficiência o vazio e ambivalência de sua personagem. Porém, seu nome como atraí público tem figurado em filmes promissores, embora demorará tempo para que Edward Cullen seja apenas o ínicio de uma boa carreira.

Destituído de toda sua força narrativa, Bel Ami – O Sedutor tornou-se apenas um romance de época com boa direção de cena e figurinos. Sendo melhor se debruçar na obra original – que recebeu uma nova edição pela Editora Liberdade – do que dar atenção a adaptação.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Sombras da Noite

(Dark Shadows, 2012)
Diretor: Tim Burton
Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Michelle Pfeiffer, Chloë Grace Moretz, Eva Green, Jonny Lee Miller, Gulliver McGrath, Jackie Earle Haley, Bella Heathcote, Christopher Lee

A cada nova produção, Tim Burton divide seu público cativo. Grande parcela reconhece que as refilmagens feitas pelo diretor mais mancharam sua imagem do que deram vazão a sua criatividade. O que antigamente era visto como um excepcional estilo com uma parceria consagrada com um ator famoso, hoje pode ser motivo de riso pelo uso constante de Johnny Depp e da esposa Helena Bonham Carter como uma fórmula desgastada.

Torna-se difícil avaliar mais uma de suas produções sem questionar-se o que aconteceu com Burton, que teve fase excelente na década de noventa e, desde a regravação de Planetas dos Macacos, começou a tropeçar tanto nessas adaptações, tidas como obras contratuais, como naquelas de cunho mais autoral.

Após o imperdoável Alice no País da Maravilhas, carregado por seu estilo, retorcendo a história original, Sombras da Noite parecia ser uma história de retorno a sua origem gótica e ainda parodiando a demanda atual de filmes vampirescos. Baseada em uma série da década de sessenta, a trama nos apresenta Barnabás Collins um sedutor que se transforma em vampiro devido a maldição de uma bruxa. Preso em seu caixão por duzendo anos, a personagem desperta e vive as transformações do mundo moderno, reencontrando sua cidade e o legado da família perto da falência, tentando reascende-la na sociedade.

Se o ambiente parece uma retomada daquele primordial, o mesmo não pode se dizer da história. Mesmo com liberdade, o diretor tem que caminhar por uma trilha já fundamentada pela série televisa, o que serve de impedimento para maior escopo criativo. A adaptação cinematográfica não justifica-se pela falta de uma trama interessante que se divide entre o amor e ódio do vampiro e da bruxa que o transformou.

Estranhamente, Johnny Depp está bem em seu papel de vampiro deslocado, deixando de lado a afetação que, desde o Capitão Jack Sparrow, surgiu em suas interpretações, compondo um personagem excêntrico mas realista. Quem permanece sem atrativo é a esposa Bonham Carter. É inexplicável compreender, além dos laços familiares, porque o diretor insiste em usa-la sempre para o mesmo tipo de papel, inserindo-a mais como um dever do que como espaço para a atriz demonstre seu talento.

Torna-se impossível não pressupor que Depp, Burton e Bonham Carter reconheçam o declínio desta parceria. Porém, permanece a impressão de que, uma vez definidos, não há nenhuma vontade de inovação, já que este formato foi funcional diversas vezes. Talentosos todos são, mas parece que estão mais preguiçosos do que nunca.



sexta-feira, 9 de novembro de 2012

As Mil Palavras

(A Thousand Words, 2011)
Diretor: Brian Robbins
Elenco: Eddie Murphy, Kerry Washington, Emanuel Ragsdale, Jill Basey, Greg Collins, Robert LeQuang, Michael G. Wilkinson, Lyndsey Nelson, Michael Cody Gilbert, Lou Saliba, Clark Duke, Cliff Curtis

O prestígio de Eddie Murphy está em baixa. Em parte, por conta de diversos filmes ruins realizados na última década, fazendo com que está produção tenha lançamento direto em home vídeo no país, sem a possibilidade dos cinemas.

Murphy teve um bom início de carreira, com filmes de destaque e um marco da comédia com Um Tira da Pesada. Porém, sempre em repetições de uma mesma personagem, um homem sorridente e verborrágio, tem se desgastado em tramas familiares.

A personagem de As Mil Palavras repetem o mesmo estilo das anteriores. Na trama, Jack McCall é um agente literário que sempre consegue o que quer. Ao tentar publicar o livro de um guru new age se machuca em uma árvore de seu templo. Árvore que surge em seu quintal como parte de um elo em comum. Fazendo-o descobrir que a cada palavra dita uma de suas folhas caem. Ligados de alguma maneira mística, se a árvore morrer, Jack também irá.

A trama improvável configura mais uma história infantil e familiar do que abrange outros públicos. Jack é o centro do conflito e precisa rever sua conduta para mudar a situação. A história mantem-se no cômico até eclodir no elemento moralizante de redenção.

A limitação de Murphy em não poder falar resulta em muitas caras e bocas que chegam a provocar um sorriso mas nunca um riso verdadeiro. Os naturais contornos de mudança da trama são mais eficientes do que seu elemento cômico, ainda que não pareça bem definido entre comédia ou drama.

Como também comum no estilo, a personagem secundária se destaca. O ator Clark Duke é um nerd, secretário de Jack, cuja personalidade tipifica o estilo. A intenção é criar uma outra personagem que faça rir, mas isso não acontece.

Nos Estados Unidos, a produção foi lançada no começo do ano, quatro anos após ter sido filmado. Indicando que produtores sabiam que tinham nas mãos um produto não muito bom. Sua arrecadação foi pequena e em algum países nem mesmo teve lançamento nos cinemas.

É uma pena se pensarmos que Murphy um dia foi um grande humorista mas hoje parece preso ao personagem que criou há décadas e que nunca conseguiu se desvencilhar.


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Procurado

(Wanted, 2008)
Diretor: Timur Bekmambetov
Elenco: James McAvoy, Morgan Freeman, Angelina Jolie, Terence Stamp

A estética de O Procurado vem diretamente influenciada pela trilogia Matrix, porém, lançada em uma época em que o mercado estava saturado deste estilo de ação que contrariava em excesso a gravidade, beirando o impossível, a favor de sua história. Sendo uma das últimas grandes produções a se valer dela.

Baseada em uma história em quadrinhos, é compreensível o uso exagerado da ação, elemento que natural nos gibis mas sempre dissonante nas telas. A mistura de uma narrativa acelerada com uma história bem cartunesca produz um descerebrado filme de ação que, se não levado a sério, tem potencial de diversão. Principalmente porque a personagem central, Wesley Gibson, destoa-se do papel de um herói. Acompanhando a trama com diversas narrativas em off – um provável resquício da obra original – a personagem insere humor ao explicitar o cansaço que sente de seu cotidiano e, dentro do lado cômico, consegue manter a credibilidade a história que gira em torno de um clã de assassinos que no tear do destino recebem missões para destruir alvos potencialmente ruins.

As cenas de ação, presentes na maior parte do filme, possuem uma direção excelente. Não há nenhum take que não seja possível compreender o que se passa em cena, mesmo que sejam pequenas cenas entrecortadas. Demonstrando que o diretor Timur Bekmambetov tem domínio em configurar tais elementos.

Se James McAvoy se revela um bom protagonista perdedor, o mesmo não se pode dizer de Angelina Jolie que continua mantendo seu charme nas telas sem nenhum carisma, sempre passando a impressão de que, por ser Angelina Jolie, não deve ao público uma personagem além de sua pose blasé. Enquanto Morgan Freeman, mesmo em um filme que não necessita de seu alto potencial interpretativo , demonstra talento ao  transitar entre o mais popular e obras dramáticas de peso.

Uma sequencia vem sendo planejada há certo tempo e, recentemente, teve o argumento divulgado. É provável que saia nos próximos anos, mas seria um erro retomar o estilo narrativo absurdo que não está mais em voga em produções do estilo e só traria descrença ao público.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Procura-se Um Amigo Para o Fim do Mundo

(publicado originalmente no blog Vortex Cultural)

(Seeking a Friend for the End of the World, 2012)
Diretor: Lorene Scafaria
Elenco: Steve Carell, Keira Knightley

A destruição como o fim em potencial sempre causa certa comoção. Seja pelo lado sensível, por uma liberdade anárquica ou o alívio de um fardo. Como nossa civilização ainda não chegou a um fim, o exercício especulativo está sempre presente em diferentes artes que sempre dão vazão ao sentimento de finitude das personagem acomodando-as em padrões. Alguns se sentindo confortáveis em realizar os trabalhos até o último minuto, outros que compreendem o fim como um espaço para mudar tudo, e seguem as variáveis.

Em Procura-se Um Amigo Para o Fim do Mundo um meteoro colidirá com a Terra. Todas as tentativas de salvar o planeta falharam e resta apenas se conformar. Dodge é um homem solitário que representa bem sua tristeza pelo semblante. Foi largado pela mulher após o aviso do armaggedon e vive com a sensação de morrer sozinho sem ninguém para uma última despedida.

Não há nenhum motivo evidente para que a trama utilize o argumento do fim, exceto por tentar trazer um contorno diferenciado a esta produção. Como até mesmo um estilo alternativo de narrativa se transformou em fórmula na indústria cinematográfica, a maneira que a diretora Lorene Scafaria encontrou para sua história de amor foi configura-la em um espaço finito de tempo. Elemento fatalista não muito inédito e presente, só para citarmos um exemplo bobo, em diversos romances do escritor Nicholas Sparks (todos devem se lembrar da açucarada história de Amor Para Recordar).

No meio de seu desolamento, Dodge encontra-se com Linda, outra personagem deslocada dentro de seu mundo e que vê no fim uma oportunidade, mesmo que limitada, de recomeçar. Juntos começam uma jornada atravessando o pais para, respectivamente, procurar um grande amor e reencontrar a família. Evidente que os caminhos se transformarão em um laço amoroso.

A necessidade de sempre se promover uma história de amor retira da trama um possível potencial positivo de apenas situar duas personagens solitários no contexto apocalíptico sem a necessidade de uma relação. Mas movidos apenas pela vontade de não permanecerem solitárias no final, com o toque de melancolia necessário.

Curiosamente, o cineasta Lars Von Trier também realizou um exercício de destruição final em Melancolia, gerando até mesmo comparações entre sua produção e este filme. Porém, colocado de maneira tão desimportante a trama não funciona nem para gerar reflexão, se tornando mais uma história de amor que tem um leve valor pela competência de Steve Carell em fazer um perdedor, personagem que, alias, foi bem melhor executada pelo ator em Pequena Miss Sunshine.