domingo, 6 de junho de 2010

Receitas Para Dormir Bem, Dr. Eduard Estivill e Dra. Mirta Averbuch

"Embora dormir seja uma atividade que realizamos todos os dias e que ocupa um terço de nossa vida, a maioria das pessoas tem muitas dúvidas sobre o que é e como funciona o sono. [...] O sono é fundamental para conservar a saúde e a vitalidade do corpo e da mente. O tempo que permanecemos dormindo [...] não é uma pausa em que não acontece nada."

Autores: Dr. Eduard Estivill e Dra. Mirta Averbuch
Editora: WMF Martins Fontes

304 pag.

Tradução de Elza Maria Gasparotto






Dormir é um dos procedimentos naturais de nosso corpo, uma necessidade diária na qual o organismo se recompõe para o dia seguinte. Normalmente, nos preocupamos em o que fazer ao estarmos acordados, esquecendo que é devido a uma boa noite de sono que temos fôlego para um longo dia. A composição do sono, mesmo que pareça simples, é formada por detalhes. Minúcias que vem desde um bom ambiente escuro e sem barulho até mesmo a maneira como se deita na cama, de preferência, confortável.

Anunciado pelo título, Receitas Para Dormir Bem, dos doutores Eduard Estivill e Mirta Averbuch, tem o intuito de ser um bom livro com missão dupla. Um informativo para os que desejam saber mais sobre o ato de dormir, explicando seus procedimentos padrões, o funcionamento em cada ser humano e os problemas que um sono ruim pode causar. E também um guia de sugestões, com procedimentos para melhorar as horas de sono em cenários diversos, como barulho ou luz excessiva.

Cada capítulo desenvolve de maneira sucinta a explicação teórica específica, seguida de exemplificações, utilizando pacientes já tratados pelos médicos e sugestões de como colocar em prática ações que melhorarão o sono do leitor.

Apresentado no prefácio, a intenção dos autores é criar um manual de constante leitura. Um livro de cabeceira sobre o sono, lido sempre que necessário. Não só o bom equilibrio entre informação e sugestões, mas também a exposição de casos reais, dão funcionalidade ao livro, alcançando a intenção dos autores. O texto enxuto tem linguagem acessível, não exagera nos jargões médicos, tornando-se um bom material de leitura básica sobre o assunto.

A edição tem formato de bolso, própria para ser carregada e consultada quando necessário. Sendo ponto de partida para interessados e aqueles que buscam respostas básicas para suas dúvidas quanto ao próprio sono.

sábado, 5 de junho de 2010

Preliminar - Toy Story 3



Pixar Animation Studios é, sem sombra de dúvida, um dos nomes mais rentáveis na produção cinematográfica americana. Seus filmes não só possuem o melhor apuro técnico na composição da animação como também qualidade no roteiro, gerando um bom lucro na bilheteria e agradando pequenos e adultos.

Não é a toa que toda estréia seja bastante esperada. Motivo no qual o estúdio é a figura central pela terceira vez nessa coluna. Uma produção da Pixar é sempre a certeza de um ingresso que vale a pena.

Durante seus 24 anos de fundação, dez longa metragens foram produzidos. Sendo apenas um deles continuação, o exuberante Toy Story 2, eleitos por muitos um dos melhores filmes do estúdio.

Nesse tempo, cada lançamento foi uma reinvenção. Técnicas cada vez mais apuradas e um estilo de contar histórias que ultrapassa o conceito bobo de que uma animação não deve ser profunda.

Após anos apresentando histórias e personagens inéditas, o estúdio anunciou três continuações, sendo Toy Story 3 a primeira delas a ir as telas.

A origem desta produção inicia-se além da Pixar, na época do imbróglio entre o estúdio e a Walt Disney Pictures, que não conseguiram estabelecer um acordo e chegaram a romper sua parceria de distribuição. Assim, dona dos direitos das personagens, o estúdio do Mickey começou a produzir, por sua conta, uma segunda sequencia para Woody e Buzz Lightyear.

Dois anos após o rompimento, os estúdios chegaram a um acordo que, além de muitos milhões, tinha como especificação a produção pela Pixar de Toy Story 3.

É perceptível pelas duas produções de Toy Story que, em seu segundo filme, um desfecho foi realizado. Embora uma nova produção não estivesse nos planos do estúdio, a boa escolha do roteiro demonstra que, como sempre, o projeto será cuidadoso.

Evitando comparações entre os dois primeiros projetos, o terceiro filme dá um salto temporal e coloca o dono dos brinquedos, Andy, já na faculdade. Assim, o destino inevitável dos brinquedos, para não irem para o lixo, é serem doados a uma creche, com a exceção do cowboy Woody, que terá de resgatá-los.

O novo argumento cria um conceito inédito a ser explorado, en
volvendo novos brinquedos famosos que aparecerão no filme e uma extensão inédita que não se parece com as histórias já produzidas.

Os trailers divulgados, entre eles diversos virais de outras produções, demonstram que o clima de boa história e risadas está bem afiado. Passando-nos a impressão de que não haverá nenhuma surpresa negativa. Somente mais uma produção com o selo Pixar de qualidade, com animação exuberante e um excelente roteiro.

A produção é dita como a última a explorar o universo de brinquedos. Porém, o estúdio está iniciando agora o trabalho com suas seqüências, sendo possível, após o sucesso que essa produção deve fazer, pensarem futuramente outra investida.

Até essa possibildade Monstros S.A. 2, Brave e Carros 2 são os próximos projetos. Será redundante confirmar sempre a excelência do estúdio, mas, sem dúvida, é devidamente merecido.





Toy Story 3 estréia dia 16 em todo Brasil, lembrando que as cópias dubladas tem as vozes de Marco Ribeiro e o incrível Guilherme Briggs como as personagens centrais. No mês que vem, Julho, a coluna Preliminar explora o capítulo final de Shrek, a única animação não-pixar que teve além de excelente retorno financeiro, um bom roteiro.

Não perca no próximo sábado, dia 12, a coluna Alta Fidelidade, um contato mais íntimo sobre arte e afins.


sexta-feira, 4 de junho de 2010

[Notícia] A Sétima Temporada de House M.D.


Após o fim da sexta temporada, é natural que fãs do seriado busquem notícias sobre a futura temporada de sua série favorita. Nas últimas semanas notei que muitos estão procurando informações. Portanto, até a volta dos episódios na televisão - normalmente em setembro - notícias sobre a produção serão postadas.

Com o encerramento recente do 6º ano da série, temos apenas a confirmação de que uma nova temporada está confirmada. O sinal verde era esperado pelo sucesso da série, que atingiu 11 milhões de espectadores no seu episódio final.

David Shore, o criador da série, afirmou logo em seu início que a série foi concebida para ter sete temporadas. O que transformaria a próxima em derradeira. Mas como tudo que faz sucesso é expandido além do planejado, é provável que a série continue por mais tempo.

Hugh Laurie há algumas semanas atrás expressou seu cansaço quanto a produção da série. Por conta do cronograma de gravações, o ator fica muito tempo distante da família, o que estaria prejudicando-o fora de sua carreira. Porém, Laurie não nega que se a próxima temporada tiver bom fôlego, uma oitava temporada seria natural, estando aberta a ela.

Em reportagem na Folha de São Paulo de 01 de Junho, o ator afirma: "Eu espero saber quando for a hora certa de parar, mas por enquanto eu estou tremendamente orgulhoso das coisas que fizemos este ano". Dando nos um certo conforto de que, caso a série comece a desnivelar, o primeiro a demonstrar descontentamento seria o próprio Laurie.

O site Omelete também comenta sobre a situação da série, citando uma entrevista do ator para à Entertainment Weekly: "Eu só espero que a gente saiba a hora certa de parar. Quando as pessoas começam a enrolar por uns cinco anos depois que passa o momento, você perde o controle. Por enquanto, estou imensamente orgulhoso das coisas que fizemos na sexta temporada".

No decorrer dos próximos meses, os inevitáveis spoilers e as notícias sobre a produção começarão a aparecer. Desde já, aviso que nenhum detalhe futuro sobre a história será contado nas notícias. Prefiro preservar as revelações no momento de assistir a série.

Mas fiquem atentos para videos e fotos promocionais, que sempre quando lançadas serão divulgadas.



quarta-feira, 2 de junho de 2010

Arquivo X, Quarta Temporada

ATENÇÃO: PARA MELHOR ANÁLISE DA TEMPORADA, ALGUMAS PARTES DO ENREDO SERÃO CONTADAS DURANTE O TEXTO (OS CONHECIDOS SPOILERS). PORTANTO PARA SUA SEGURANÇA, SE NÃO QUISER SABER NADA A RESPEITO, PARE DE LER O TEXTO AGORA. MAS RETORNE APÓS TER ASSISTIDO A TEMPORADA, POR FAVOR.

Perseguir a verdade é encontrar mentiras

Séries marcadas com uma temporada excelente do começo ao fim sempre possuem trabalho dobrado no ano seguinte. Devido a expectativa elevada do público, é difícil realizar outra temporada competente do começo ao fim sem que haja inevitáveis comparações.

Dando continuidade ao seu terceiro ano, a quarta temporada de Arquivo X apresenta excelentes episódios. Mas possui uma leve queda nas tramas semanais, em casos não muito sedutores cujo desenvolvimento não é tão fluído como na terceira.

Com as bases da mitologia desenvolvi e bem firmada nos três anos anteriores, a abrangência de narrativas fica maior. Fato coerente com a idéia de que os agentes Mulder e Scully investigam qualquer situação que seja fora do comum, seja ela estranha, sobrenatural ou misteriosa. Tal abertura embora afaste a série de sua trama inicial (a conspiração governamental com alienígenas) complementa-a bem.

Porém, tais desvios as vezes são exagerados, resultando em episódios que falham na trama investigativa e no desenvolvimento da ação que não se torna sedutora em seu todo.

Permeado entre os sempre excelentes episódios mitológicos e ótimas tramas fechadas (O Lar, Corações de Pano, O Homem do Câncer, Insignificâncias) a temporada perde sua qualidade a apresentar histórias questionáveis (Teliko, O Campo Onde Morri, Oração Para Um Morto, Desprezados) em que nem a química da dupla conseguem salvar.

O enfoque mais interessante desse ano centra-se no câncer adquirido por Scully, por causa de sua abdução. E no episódio O Homem do Câncer – um ser que sobrevive digerindo o câncer de outras pessoas – que tanto publico quanto a própria agente descobre a respeito de sua doença. Um sutil detalhe para inserir uma trama importante no enredo mitológico da série.

A partir desse ano as tramas não se centram somente na busca incessante de Fox Mulder, dando vazão a dor íntima de Dana Scully - que persegue a verdade do parceiro com pouca credulidade entre aquilo que vê e sua fé cristã - e as privações que sempre passa nessa empreitada.

Como Mulder, a agente funciona como mais um peão na intrincada, mas interessante trama conspiratória da série, como visto no excelente episódio Não Restou Mais Nada, que confirma a ajuda invisível do diretor Skinner e os laços fraternos de personagens da conspiração com os agentes.

Mesmo com um leve desnível em relação a qualidade da temporada anterior, acertos são maiores que os erros. Como costume da série, o último episódio abre o gancho para a temporada seguinte e de maneira audaciosa coloca em cheque tudo que já foi explorado até aqui.



segunda-feira, 31 de maio de 2010

A Semana em Filmes (23 a 29 de Maio)




Dominação (Lost Souls)

Dir. Janusz Kaminski


Divididos entre céu e inferno, personagens satânicas ganham bem mais status do que seus opostos divinos. A pluralidade de suas ações, bem como os limites, baseados no conceito cristão do Diabo, geraram não só uma lista refinada de filmes de terror como possuem bons filmes no gênero cômico.
Porém, a exploração desses recursos sempre se traduz como limitada. Ainda mais quando, filme após filme, o enfoque seja sempre o mesmo: uma trama em que uma personagem será escolhida como receptor do anti-cristo na Terra, um grupo desacreditado que tenta salvá-lo e um aparato de recursos técnicos – alguma cena inicial de exorcismo e abundante fotografia escura – que buscam um clima.
Tais elementos não bastam – e nunca bastaram – para que se produzisse uma boa história a ser contada. E, mesmo após diversos filmes que fracassam nas telas, a fórmula continua sendo empurrada para o público.
É impossível dar credibilidade a Dominação. Produção que tenta com Winona Ryder apontar alguma qualidade distinta, mas que não traz nada novo. Reunindo os elementos básicos de filme satânico, tentando manter uma trama sem graça que não tem sustos. E somando mais um filme a galeria de péssimas produções sobre o gênero.
É bastante infeliz constatar que os estúdios nunca dão a atenção devida a suas produções de terror. A fórmula do comum funciona para ter certo lucro nas bilheterias, afinal, terror sempre é um bom chamariz, mas deixa de enganar facilmente. O resultado disso são produções efêmeras. Divertem por duas horas e são esquecidas até passarem na televisão. Quando passam.




Vanilla Sky (Vannilla Sky)

Dir. Cameron Crowe


Incompreensão cinematográfica nem sempre é sinônimo de má qualidade. Algumas produções constroem-se na base do estranhamento, a procura de desnortear quem vê.
Sem dúvida, Vanilla Sky gerou diversas incógnitas em seu público, dividindo crítica e tendo uma recepção morta.
Lembro-me da estréia, da expectativa e frustração que tive ao fim da sessão. Revê-lo sempre foi uma vontade. Mas, deixando para depois, nove anos se passaram. Tempo suficiente para compreender boa parte dos detalhes da narrativa.
A história do rico empresário David Aames não é apenas um bom exercício narrativo como uma reflexão. Contrapõe-se uma vida perfeita com beleza, parceiras sexuais, dinheiro a uma vida lacunar em seu interior. Reflete a imagem contemporânea de um homem que pode possuir tudo menos a felicidade.
Tal partícula da felicidade é encontrada na personagem de Sofia que Aames conhece na festa de seu aniversário. Em apenas uma noite em sua companhia, David descobre a ausência de sua vida. Porém, ao amanhacer, paga as contas de um passado de bon vivant ao entrar no carro de sua amante e sofrer um grave acidente que, se não lhe custa a vida, lhe custa boa parte da alma.
A grande apuro técnico na direção das imagens e também nos diálogos. Não só desenvolvendo frases de efeito como outras referências que ficam mais claras após o término do filme.
Assistido com distanciamente de nove anos, após a recepção pública não ter gostado de um filme complexo, Vanilla Sky é uma excelente narrativa que coloca em jogo não apenas um personagem raso, como, com delicadeza, abrange o conceito de sonhos, planos, mentiras e desejos que, muitas vezes, optamos por seguir em vez de viver de fato.
A produção americana é baseada no filme espanhol Preso na Escuridão de Alejandro Amenábar. Muitos dizem que a produção espanhola é mais emotiva e solta que a versão americana, em breve verei para comparar. Porém, sem dúvida, esta produção tem grandes méritos.




Kick-Ass - Quebrando Tudo (Kick-Ass)

Dir. Matthew Vaughn


Atualmente histórias em quadrinhos entram, em definitivo, na lista de produções que, normalmente, funcionam e dão lucro. Tal sucesso resultou, nos últimos anos, diversas adaptações quadrinescas. Tanto dos super-herois graúdos das maiores casas, Marvel e DC, como HQs independentes que, solta de amarras, puderam ser vislumbradas também na tela.
Costuma-se definir o filme Blade – Caçadador de Vampiros, de 1998, como o primeiro filme a chamar atenção de Hollywood em relação aos quadrinhos. Mesmo tratando-se de uma produção pequena, seu sucesso foi alto, não tanto quanto ao retorno financeiro, mas sim a qualidade que tal produção apresentava, demonstrando que sim, era possível fazer histórias boas de heróis.
Segui-se, então, em 2002, a entrada definitiva de um herói no cinema, na produção Homem-Aranha. De lá para cá, diversas histórias em quadrinhos ganharam as telas. Entre histórias inovadoras, uma lista considerável de produções ruins aparecem na lista. Sem contar elementos outrora inovadora que agora beiram o comum.
A maioria dos grandes heróis já marcam presença na tela e muito já possuem duas produções. Mas, salvo exceções (como Batman - O Cavaleiro das Trevas, Homem Aranha 2, X-Men 2), suas continuações não trazem muita evolução. Fazendo do apelo cômico ou da firme interpretação da personagem central sustentar argumentos não tão fortes.
Em meio a esse cenário, Kick-Ass – Quebrando Tudo é uma produção louvável. Virando as avessas o conceito de heróis, abordando adolescentes nerds comuns, desses que vivem ao seu lado, a história escrita por Mark Millar e desenhada por John Romita Jr. foi adaptada com qualidade para a tela.
Em meio a um mundo cada vez mais violento, onde muitos observam e nada fazem, Dave Lizewski, um nerd leitor de quadrinhos, resolve ser o primeiro super herói a ajudar o próximo. Não que a tarefa seja fácil.
Por ser uma trama que satiriza o conceito dos quadrinhos dentro do mesmo universo, há coerência na trama para apelar diversas vezes para o riso e, ainda assim, ser rica com um bom argumento.
A direção ficou a cargo de Matthew Vaughn, que já havia transposto para a tela outra história quadrinesca, Stardust, de Neil Gaiman. A direção de Vaugh é bastante precisa e as cenas de ação com cortes rápidos deixam a açãoágil e apurada, fazendo o máximo para que o público integre-se nas cenas.
Não só a trama e direção, como também as personagens são bem delineadas. Até mesmo Nicolas Cage, ator que anda deslizando nas atuações, apresenta um herói – Big Daddy – seguro de si. Sem contar a atriz mirim Chloe Moretz bem a vontade como a incrível heroína Hit Girl.
Quase dez anos depois do boom dos quadrinhos no cinema, mesmo com diversas produções apresentando cansaço, é bom descobrir que ainda há espaço para boas histórias adaptadas do mundo da banda desenhada que, não só brincam com o próprio conceito das histórias, como, no caso de Kick-Ass, é uma das histórias mais politicamente incorreta dos últimos tempos.
A produção estréia no Brasil dia 11 de Junho e O Que Dr. House Diria? recomenda.

domingo, 30 de maio de 2010

Dalia Negra, James Ellroy

"A pocilga fedia a vinho ordinário. Uma cama improvisada com dois assentos de carro desdobrados tomava quase todo o espaço do piso; estava coberta de recheio de estofado e camisinhas usadas. Garrafas vazias de moscatel empilhavam-se nos cantos, e a única janela tinha faixas de teias de aranha e de sujeira. O mau cheiro me deixou enjoado, então fui até a janela e a abri. Olhando para fora, vi um grupo de tiras de uniforme e homens à paisana em pé na calçada da Norton, quase a meia quadra de distância da 39."

Autor: James Ellroy
Editora: Record
432 pag.





Atos violentos sempre deixam marcas, muitas vezes eternas.

Mais um assassinato na cidade pode ser comum para os relatórios da polícia, mas pode significar uma grande perda para uma criança de dez anos. Especialmente quando a assassinada fora sua mãe.

É dessa maneira violenta que James Ellroy, um dos grandes escritores policiais da atualidade, vê sua vida desmoronar na infância e passa a viver em rupturas, com diversos problemas para enfrentar a realidade. Seu novo abrigo é o mundo violento da literatura barata, e nos livros dados por seu pai alcoólatra, nos quais descrevia diversos casos violentos da polícia de Los Angeles, muito deles tão chocantes que não eram permitidos de serem transmitidos na televisão.

Um deles em particular chama a atenção do garoto, com então onze anos: Elisabeth Short, encontrada em um terreno baldio com o corpo cortado ao meio. Torturada por dois dias, com marcas de cigarro nos seios, retalhos por todo o corpo e um corte de orelha a orelha. A vítima ganhou o nome de Dália Negra, dado por um repórter, ao saber que ela só trajava preto.

O caso brutal se tornaria um dos maiores eventos da mídia local e transformar-se-ia na obsessão de Ellroy. O crime era como uma substituição da morte de sua mãe. Assim, passou a investigar o caso, pesquisando em bibliotecas tudo o que fosse possível encontrar sobre Elisabeth Short.

Os anos seguintes de sua leitura sobre o crime foram os piores de sua vida. O autor caiu nas drogas, foi preso diversas vezes e descobriu que sua paixão pela narrativa policial e sua obsessão de infância poderiam lhe render boas ideias. Assim, deu início a um texto sobre um assunto em que tinha um vasto conhecimento: A Dália Negra.

O assassinato de Elisabeth Short é o ponto de partida do livro Dália Negra. Situado em uma Los Angeles dos anos 40, pós guerra, repleta de personagens ambíguos e violentos, mulheres fatais e homens corruptos. Ingredientes perfeitos para a composição de um romance noir.

É nesse ambiente hostil que somos apresentados a dois ex-pugilistas, que possuem conflitos com o passado, mas são obrigados a enfrentá-los para resolver esse crime. A narrativa apresenta a visão de um deles, o “Sr. Água” Bucky Bleichert, narrador-personagem essencial para uma trama em que as percepções se alteram em seu decorrer. Na história conhecemos sua amizade com o “Sr. Fogo” Lee Blanchart e a grande obsessão de ambos em resolver um caso, aparentemente, sem solução.

Partir além desse ponto sobre comentários da trama, é revelar intricadas linhas de relações que se estabelecem durante a leitura. E que devem ser descobertas, justamente, no ato. Na grande habilidade de Ellroy em conduzir uma narrativa policial sem perder o fôlego e mantendo bons ganhos de suspense e ação para o leitor.

A nova edição do livro foi lançada com a capa do filme homônimo, dirigido por Brian de Palma, que transformou em pastiche a excelente história do autor. O que também é negativo pelo fato da nova capa perder o belo padrão estético dos livros da Coleção Negra, como as antigas, com as características capas pretas com uma pequena ilustração em detalhe.

A capa original da obra, traz uma breve citação da revista People, “uma obra prima”. É necessário concordar, Dália Negra é um dos grandes livros policiais da literatura contemporânea, pela narrativa bem amarrada, ágil, violenta e arrebatadora.

Chega a ser irônico que a morte real e brutal de uma jovem tenha trazido à tona uma excelente ficção, inspirada pelo fascínio de um jovem pela dor e perda da mãe e, também, dedicada a sua memória.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Bones, Terceira Temporada

ATENÇÃO: PARA MELHOR ANÁLISE DA TEMPORADA, ALGUMAS PARTES DO ENREDO SERÃO CONTADAS DURANTE O TEXTO (OS CONHECIDOS SPOILERS). PORTANTO PARA SUA SEGURANÇA, SE NÃO QUISER SABER NADA A RESPEITO, PARE DE LER O TEXTO AGORA. MAS RETORNE APÓS TER ASSISTIDO A TEMPORADA, POR FAVOR.

Casos totalmente decompostos

Percorrendo a trilha de duas boas temporadas anteriores, o terceiro ano de Bones teve de enfrentar uma força maior além de seu desenvolvimento cênico: a greve dos roteiristas, que foi responsável com que todas as séries lançadas no ano de 2007 tivessem temporadas menores, causando diversas problemáticas em muitas delas.

Tratando-se de uma série em que cada episódio é, boa parte, isolado, tendo apenas um leve fio de narrativa que os une, Bones não saiu tão prejudicada. A boa saída para sanar o problema de não ter 22 episódios como de costume foi a de apresentar apenas uma trama maior, um assassino específico, que se desenvolveu nos quinze episódios produzidos, enquanto, evidente, outros casos foram desvendados. Intencionando unificar melhor a história.

O assassino central dessa temporada, Gormogon, um canibal que remete-se a antigas seitas, tem o intuito de, não só se alimentar de suas vítimas, como reproduzir um esqueleto humano, trocando as peças de prata da escultura conhecida como O Filho da Viúva por ossos humanos.

Tal desenvolvimento é bastante atrativo, sustenta o início da série, pela brutalidade do crime e pelas dúvidas que ele suscita. Afinal, tal seita não parece ser apenas a vontade de um homem só.

Ainda que a boa química entre Bones e Booth continue presente, há uma leve queda na qualidade dos episódios, em comparações com aquilo que já fora apresentado. São pequenos detalhes mas que, em um todo, sente-se a diferença. Como episódios divididos entre uma boa trama detetivesca e bom humor que não estão presentes, dando vazão a diversos episódios de uma crise deflagrada de ambos.

Com o pai de Bones preso por Booth no final da segunda temporada, o que poderia gerar atritos entre a dupla, surge um novo personagem. Incorporado pelo FBI para ser o psicólogo do casal, Lance Sweets apresenta boas características em sua estréia e cresce na temporada. Sua persona surge desacreditada e, mostrando sua competência na área, conquista respeito de Booth e ajuda Bones – que não acredita na visão da psicologia – a desvendar os crimes.

A criação da nova personagem não é aleatória. Funciona como ligamento entre a história central e os conflitos paralelos e será decisiva para o movimento final da temporada. Tal ato é bastante comum nas séries que, após darem ao público anos de confiança a respeito de uma personagem, coloca-a em xeque, deixando o público boquiaberto.

É assim o desfecho final desse ano. Retirando um excelente personagem da série, com uma trama bem argumentada. Prevendo que haveria uma abertura vazia, insere antecipadamente outra personagem que, se não substitui a função da primeira, criará novas situações no próximo ano. Ainda que a prova dessa nova dinâmica só será vista na quarta temporada.

Mesmo possuindo uma narrativa pausada, dividida pelos casos de cada episódio, os quinze episódios do terceiro ano tem fôlego curto. Alcança a empatia do público com seu bom desfecho e assassino central, mas falha com argumentos pouco ricos, como foram os diversos casos dos dois anos anteriores.