domingo, 7 de setembro de 2008

No alvorecer do novo dia, sai,
de cinco passos rumo ao infinito
e imagine que um dia tenha fim

Caminhe nos recônditos absurdos
force o raiar do dia com sua luz
trazendo para perto de ti a força armada

No chegar da tempestade
chore pelas gotas que virão
e anseio o renascer sereno do tempo

assim seja seu espírito
uma unção, grande quanto mundo
quanto sua sutileza

Terno, como o carinho das mães
Sereno, como palavras paternas
Doce, como os lábios da filha procurando proteção
Seu, com a vontade maior em sua conquista.

22 de Abril de 2006

* Eu me lembro de compor esse poema em meio a uma festa, onde rasguei uma página velha de uma agenda de minha mãe e comecei a escrever sem parar. Para a transcrição fiz apenas duas ou três modificações que achei válidas, que o tempo melhor ensinou na matéria da poesia. Porém é um poema um tanto quanto romântico, também com a influência do sempre mestre Manuel Bandeira. Ele foi encontrado nesse final de semana em meio à bagunça das gavetas. Por isso, faço um registro nesse espaço, caso eu perca o pequeno papel em que ele foi composto.

domingo, 17 de agosto de 2008

Experimentação

Não gosto do título que eu mesmo criei, devo confessar. Mas últimamente a palavra que pode definir melhor meus textos é a palavra experimentação. Estou procurando inserir novos elementos, a cultura literária que leio, os autores que me influenciaram e vejo que isso tem dado bons textos e me deixado satisfeito com aquilo que produzo.

Percebo que, aos poucos, estou inserindo a narrativa bela e grotesca do gênero policial que tanto gosto e acho tão rico de significados. A linguagem direta que usa a metáfora como um jogo direto de significados.

Tenho permeado também os cenários marginais, as personagens de alguma forma alejadas pela vida. Seja um filho que teve sua vida maltrada por um pai que morreu pelos negócios, um homem que não sabe mostrar seu amor ou personificado em uma personagem que, se virar ficção, tem tudo para ser uma boa personagem.

Com isso sinto-me feliz por dizer que sim, voltei a ter prazer em escrever linhas de ficção, de me divertir escrevendo histórias estranhas, profundas. Entrando em breves lacunas de sentimentos de minhas personagens, vivendo em curtos períodos aquelas vidas criadas por mim mas que já não mais me pertecem.

Ao poucos consigo de novo me nivelar, trazendo de novo a tona meu lado mais turbulento, meu eu criativo louco, lúcido e esquizofrênico. Então, escrevamos.

Bauru, Domingo, 17 de Agosto de 2008.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Só Não Vai Quem Já Morreu

ou vinte e três anos de sonho e de sangue.

Fomos bons e jovens. Sem o rancor ressecado nos lábios envelhecido sob a pele. Tínhamos a juventude como fruto proibido a ser devorado, éramos fortes.

Sentado em roda no chão, rindo da ironia da vida e da benção da união, amigos de mãos juntas como um rio que fluí, esqueço-me até de quantos éramos.

Hoje temos o retrato envelhecido da família na mesa da sala, a marca nos dedos dos anéis que nos enforcaram. Celebramos eternos aniversários a sós. O garfo lavado no dia seguinte, a única fatia solitária de bolo não representa mais celebração. Éramos ingênuos.

Hoje ao deitarmos em nossa solitude, esquecemos de apreciar carinhos e conquistas. Estamos mais fracos, mais velhos, nos enferrujamos. As frases que dizíamos não se encontram mais na boca do povo.

Não éramos reis nem príncipes, mas havia ouro em nossas mãos. Algo que deixamos escorrer como rosas que brotam fora da estação e morrem em dias. Fomos vencidos antes mesmo de estarmos mortos. Agora é tarde demais.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Olhos de Amor e Ódio

Quero apenas estar de mãos dadas, sentindo seu calor. Sabendo que na ausência de seu corpo, os vincos formando minhas mãos são apenas lembretes de que não estas aqui. Quero ser a forma saciável de seus desejos, manancial de mel e sal, do apetite insaciável que tens de me querer como a cobiça deseja o ouro.

Em meu peito sinto o inexplicável, uma fonte mutável e intocada que faz canção a cada segundo. Traz sorriso e me leva as lágrimas a melodia de seus olhos de amor e ódio, pois homem e mulher não vivem apenas de amar e nós, assim também, não viveríamos.

Te quero hoje quanto amanhã. Paciente dia a dia em saber que nessa noite, quando deita o sol, se não te tenho em meus braços, amanhã eles serão sua morada. Pois se nasci, sei que nasci para você minha amada, desejo de amor, ódio e ardor. Vivo para ser seus desejos, emaranhado ao amor como escravo e mestre, atado a minha sede de desejo por ti que não possui rédeas nem escolhas.

Te quero com paciência, vendo as ondas de um solitário mar que há muito naveguei, admirando a fragilidade da espuma que se quebra na praia, habitat que só podemos viver juntos, pois sem amor não somos nada.

Desperto achando que és sonho, mas me acalmo quando ao abrir os olhos observo seu descanso sereno. Tocando lhe a face, fazendo de meus sussurros declarações de amor escondidas pelo seu sono, por sua calmaria.

É onde desejo estar. Dentro de sua calma sem nunca dizer lhe não. Queria ser só de ti, menos meu, mas dentro de mim também grita a vontade de me ser, vivo de carne, osso e sangue. Ser o espírito e a carne, desafiar deuses, ser o filho que desejo ser e o homem de teu seio amado, trezentos em apenas um.

Quero seu bem e seu mal, seu ósculo, seu veneno, quero tudo digerir em meu espírito. Seja bela, seja feia, louca, lúcida, pois também serei a tessitura mais doce e amarga de sua vida. Mas não me dê espinhos, meu amor, que a vida é caminho repleto de castigos, e as dores que já temos no peito são o bastante para sermos infelizes.

Perdoa minha insegurança, medo infantil de perder o ser amado. Perdoa a imprudência de meu amor, por ser ti meu amor primeiro. Perdoa as rugas e cicatrizes.

Eis a matéria de que sou composto, apenas corpo, coração e um amor dilacerado para doar. Aceita meus flancos imperfeitos, meu amor, as dobras de minha carne que já se corroeram, as lágrimas que choro todos as noites quando preciso estar sozinho.

Não me consuma, meu amor, me habite. Me ame com a ternura de uma mãe, a paixão dos amantes, o amor dos velhos enamorados.

Seja minha, pois sou todo seu enquanto desejar.

Araraquara, 30 de Abril de 2008.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Mudando de Planos

A cada dia que passa sinto menos vontade de fazer literatura, e mais vontade de ser apenas um leitor comum.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Via Crucis Literária

Se eu dissesse ser fato às vezes citado, eu mentiria. A verdade é que tenho muito apreço por descrever o que entendo como literatura. Primeiro porque é mais seguro ter seu próprio manual, mostrar aos leitores seu ponto de vista sobre a produção literária. Segundo que também é mais fácil, já que assim sua teoria da composição corrobora com sua literatura.

O fato é que minha inspiração ainda é limitada. Tenho arroubos de idéias geniais e chego a executá-las de modo razoável, mas muito do que escrevo é também uma versão fictícia da minha vida, ou uma versão literária de um acontecimento banal que presenciei.

Às vezes lendo os escritores famosos me pergunto da onde surgiu motivo para tamanha inspiração. Contos fantásticos, contos urbanos partindo de um ponto simples de um homem comum em meio à metrópole. Rara às vezes sou assim.

Estou cansado de escrever como um todo. O ato diário de ser perceptivo ao mundo que nos cerca, mesmo que automaticamente, e prever uma história, também gera um desgaste. Por isso quero deixar as prosas de lado, apenas escrevendo pelo exercício.

Também tenho refletido a respeito disso, de um diário com minhas memórias e meus pensamentos. Tenho um amigo que mantém um diário há anos mas chego a me questionar, até que ponto devemos confiar nossas idéias a uma junção de narrativas pessoais? Nossas palavras não ficam com o tempo íntimas demais para serem catalogadas em um diário? Não há também certo medo de que algumas daquelas linhas possam ser lidas, sem querer, por alguém além do próprio autor?

Nunca gostei de exposição, embora nesses textos autorais, tudo que faço é simplificar ainda mais minha própria alma. Eu e meu eu lírico literário e seus desdobramentos. Nesse contexto questiono porque tamanha exposição? Qual é a valia de expor seus próprios pensamentos ao mundo, porque não fazer isso de forma reclusa em um diário oculto escrito a mão?

A vontade febril de um escritor em ser lido acaba por distorcer uma imagem reclusa. O que me lembra, por bobagens, a idéia do fuzilamento como sentença de morte. Normalmente quando há mais de um atirador, um deles usa - ou ao menos deveria - uma bala de festim. Possibilitando assim a dúvida em saber quem foi o autor dos tiros que matou a vítima. Esse benefício da dúvida é o que também me faz escrever em um lugar amplo.

Sei que minhas palavras são para ninguém, que prego em uma rua vazia de leitores. Mas a possibilidade de alguém, acidentalmente, talvez, ler minhas palavras me faz continuar a escrevê-las aqui. Assim, de alguma forma, sou também um homem dentro de uma caixa de vidro no centro da cidade, convidando quem quiser a assistir meu espetáculo comum de viver.

A poeta Hilda Hilst, que tenho conhecimento recente e grande apreço, disse em uma entrevista que não considera a profissão de escritor um ofício comum. O questionamento literário é sempre constante e concordando com a afirmação da poeta, não é curioso se perguntar que benefícios teriam minhas palavras em um mundo iletrado? Quantas pessoas não escrevem preciosidades expostas em paredes de concreto onde ninguém passará perto para lê-las?

O que mantém vários escritores de minha geração - creio que a maioria dos escritores em geral - é a gana de querer ser lido. Deixar sua mensagem em um livro que será devorado por quem queira, sem se tornar mais um livro em uma livraria cujos preços são exorbitantes. Mas nos tempos atuais não se diferencia mais o ato de escrever como forma literária do ato banal de apenas escrever, gerando anomalias bizarras como prostitutas que escrevem livros com a nítida idéia de ser literatura.

Hoje eu já desconfio de minha profissão, mas, vejam a ironia, é o único ofício que sei fazer. Não sei carpir, construir prédios, muito menos tirar xerox na esquina, e também não tenho desejos de aprender. Quero apenas prosseguir com o que sou capaz, e a literatura me satisfaz muitas vezes.

Assim prossigo com a via crucis literária, aguardando também novas idéias, produzindo exercícios aos poucos, um pouco distanciado de qualquer grande ou pequeno público. O exercício é também um grande material para novas idéias, novas formas de produzir sua literatura singular.

O que move um escritor como eu, é saber que a estabilidade da minha escrita nos tempos de hoje, pode ser a base de um futuro realmente sólido. Por isso continuo a escrever.

Bauru, Sábado, 5 de Janeiro de 2008.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Sobrevivendo ao Natal

Desenvolvi, nos natais passados, o hábito solitário de deixar a agitação natalina de lado para realizar uma breve reflexão. Caminhando em frente a casa, sentindo a leve brisa de dezembro, refletindo sobre o significado do natal.

Sempre me senti vazio no Natal. Em qualquer lugar as felizes músicas natalinas são reproduzidas sem parar e, chega a ser estranho, até as pessoas são mais amáveis uma com as outras, enquanto eu sempre continuava amargo.

Os natais em família tornaram-se diferentes daqueles de minha infância ao início da adolescência. Os presentes fartos e a família inteira bagunçando a casa acabaram-se faz tempo. A família se transformou, casaram-se, dando origem a outros natais. Natais mais distantes.

Faz tempo que o natal não é mais meu natal, e sim uma celebração emprestada por alguma parte da família, um convite para conviver com parentes não tão próximos por uma noite. Foi nessa época que deixei as celebrações de lado para refletir sobre o ano que passou.

Essas reflexões justificam meu deslocamento, passando o natal em diversos lugares que não meu lar, sentindo falta do meu natal. Daquele que meu tio ainda casado chegava com meus três primos pequenos correndo pela casa. Do dinheiro farto suficiente para comprarmos presentes para os queridos.

Hoje meu natal não possui nem o menino Jesus nem árvore de natal. Os enfeites eram costumes de minha vó, que não está mais entre nós. Meu lar permaneceu igual como um dia qualquer.

E assim deixei meu medo de lado para realizar um desejo antigo: esqueci o natal. Passei a véspera assistindo filmes, tendo a melhor ceia de minha vida, meus pratos cotidianos, arroz, feijão e, por gulodice natalina, uma pequena pizza.

O natal perdeu muito de seu significado; deixou de ser fecho, para ser uma data apenas. Esquecer o natal não mudou aspectos de minha vida, mas foi uma sensação nova e diferente. Não houve a reflexão sobre o vazio, o deslocamento, porque dessa vez estive em casa, em paz comigo, não vazio.

Após vinte e um natais religiosamente cumpridos na mesa de jantar, Jesus há de me perdoar pela minha ausência, por preferir ficar em casa do que esboçar sorrisos, procurar integração, fingindo ser aquilo que não sou.

A parte disso, bebamos vinho e comamos pão.


Bauru, Terça - Feira, 25 de Dezembro de 2007.