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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Má Companhia, com Marcelo Mansfield e Carlos Fariello

Resenha do espetáculo do dia 17 de Abril, as 20h, no Madame Pimenta em Bauru.


É necessário apenas uma pequena busca pela internet para concluir que o humor no país tem se expandido. Não só em uma única fonte, como produzindo diversos estilos. Desde as piadas mais previsíveis e rasas – onde muitos incluem o humorístico global Zorra Total, a outra elaboradas e clássicas, que usam o silêncio e a expectativa do público para a explosão do riso.

Realizado pelo site Tv Zueira – que já trouxera, ano passado, o C.Q.C. Marco Luque para a cidade – O espetáculo Má Companhia, que reúne o grande Marcelo Mansfield e Carlos Fariello, é uma excelente produção que aponta, não só o óbvio talento dos humorista, como estabelece um panorama de diversas maneiras de se fazer rir.

Unidos em uma só produção, há uma pitada de diversos estilos cômicos. As piadas de cara limpa da comédia stand up, esquetes focadas em personagens excêntricos, cenas em que o gancho para o riso se encontra na composição entre a interpretação corporal e canções e momentos em que a dupla trabalha em conjunto.

A sucessão de diversos estilos únicos gera um hilário espetáculo de bom – ou mau – humor, que não deixa a platéia em silêncio em nenhum momento.

Quem abre o espetáculo é Marcelo Mansfield, retomando algumas piadas de seu solo, Nocaute, que, mesmo ouvidas pela segunda vez, mantem-se engraçadíssimas, além de apresentar seus personagens clássicos, Seu Lili, o que está sempre puto, e o fracassado Seu Merda. Enquanto Carlos Fariello apresenta um hall de personagens em esquetes tradicionais, com direito a figurino travestido, peruca, maquiagem e ganchos cômicos.

O ápice da produção se concentra em seu final, quando ambos se alternam em esquetes curtas, pontuadas como se fossem anuncio ou apresentações de uma rádio. Mansfield desfila em diversos caracteres de humor mais físico, e Farriello apresenta uma piada em crescendo, que explode-se em stress, e humor, no final.

A produção não só apresenta dois comediantes incríveis de nosso vasto time de comediantes, como é capaz de mostrar que o riso surge de diversas formas e que, quando bem trabalhadas, produzem o efeito desejado no público. A catarse que se explode em gargalhadas.

A Tv Zueira trouxe o espetáculo para Bauru e Pirajuí e merece também seus aplausos pelo incentivo de, sempre que possível, trazer cultura para o interior de São Paulo, principalmente em Bauru onde tais produções andam tão mirradas. Um show de stand up não só é mais acessível, pois transporta apenas os comediantes e, talvez, um produtor, como sempre alcança seu público máximo, ainda mais na época em que nossa comédia está em alta.


domingo, 18 de outubro de 2009

Hã?! de Diogo Portugal


São poucas as peças teatrais que ganham destaque no circuito São Paulo – Rio de Janeiro que conseguem realizar uma turnê pelo país e passar por cidades do interior. Normalmente, por serem grandes produções, cabe ao público de outras cidades se locomover até as capitais para assisti-las.

No interior (no meu caso, o de São Paulo), a produção teatral foca-se em grupos menores, que realizam expetáculos conhecidos e, as vezes, recebem grupos de outras cidades com produções próprias. Mas a divulgação é tão pequena, que perdemos boas e pequenas peças.

Em benefício ao teatro, e também ao humor, a crescente onda dos stand up comedy é um fator bem positivo para desempoeirar alguns teatros do interior que há tempos não recebiam tanto público.

Aos fãs da comédia, é um prato cheio assistir ao vivo os humoristas que, normalmente, são conhecidos inicialmente por trechos de seu trabalho publicados na internet, em sites como You Tube, funcionando como um grande chamariz para quem vai ao teatro conferir depois o espetáculo na íntegra.

Um comediante de stand up, a conhecida comédia de cara limpa, é um benefício para todos os lados. Ao público, que conhece uma geração talentosa de humoristas, vindo de diversos lugares do país; as equipes que trazem o humorista, pela praticidade de contar apenas com uma pessoa em cena e não precisar de nada além de um banquinho, um microfone e uma garrafa d´agua, sem contar que realizar um espetáculo extra quando o primeiro esgota seus ingressos, depende apenas do fôlego do humorista. Que também se beneficia por, não só contar para uma platéria variada suas piadas, como ser recomendado pelo público presente como um bom humorista, ocasionando inevitáveis visitas ao You Tube e ganhando novos fãs.

A prova do bom momento para os humoristas é comprovada ao dizer que o stand up Hã!? do curitibano Diogo Portugal foi o quinto show de humor stand up que assisti esse ano, somente na cidade de Bauru, e o oitavo em uma somatória total.

A exposição desse número serve para validar que, não só o público está marcando presença nos shows de humor, como também mostrar a versatilidade de cada humorista, que se, as vezes, trafegam por pontos comum, sempre tem um estilo próprio.

O espetáculo de Diogo Portugal segue a linha mais escrachada do humor, aquele que não faz mesuras, nem tem modos para se pronunciar. O rebaixamento é inevitável para produzir piadas que as vezes tocam o humor negro, mas que são deliciosamente engraçadas.

Diogo inicia seu espetáculo aos poucos, como quem testa a audiência da noite. Faz uma pequena introdução de si mesmo, e algumas piadas colocadas. Basta alguns minutos de sua presença no palco, para conquistar, se não toda, boa parte do público. É, então, que puxa o primeiro gancho, falando de si mesmo e seus quarenta anos, que dispara seu arsenal pesado de piadas sobre a vida, o envelhecimento e outros problemas dos homens de quarenta, com uma dose alta de sacarmos e muito humor. Boa parte de seu show está focada em si mesmo.

Ainda que todo comediante siga um roteiro pré estabelecido de piadas, é nas falhas e nas imprevisibilidades da noite que notam-se o domínio do palco e a capacidade de sair-se bem de situações. Os erros são uma prova de fogo para os humoristas.

Em uma falha no microfone, Portugal comprova seu domínio no palco e, enquanto aguardava a demorada produção a lhe trazer outro microfone, rapidamente improvisou uma conversa com o público, perguntando a cidade de cada um da platéia e pontuando piadas entre suas respostas, sem roteiro ensaiado.

Bom recurso utilizado pelo humorista também é de orientar-se sobre pontos e fatos conhecidos na cidade antes de show. Assim, colocando o público bem no centro da sua piada e favorecendo ainda mais o riso quando menciona diretamente aquilo que, diariamente, é conhecido por eles.

Seu espetáculo também inova em seu final, diferente dos stand ups que já vi que sempre terminam com uma piada de arranque, que provoca o riso no final como um estouro. Diogo canta uma música, criada, de acordo com ele, para ajudar aquele amigo que ainda não sabe que é gay a sair do armário. Com violão e voz, ironizando as bobas canções pop, o humorista canta e faz pausas na melodia para apimentar a canção com mais humor, dando um belo final para seu ótimo espetáculo.

Atualmente, Diogo Portugal está apresentando uma temporada de seu projeto Senta Pra Rir em São Paulo, no teatro Raul Cortez, todas as quintas-feira, a partir da 21h30. Além de suas apresentações, o espetáculo conta com convidados a cada semana. É uma oportunidade para os paulistas conhecerem seu trabalho se ainda não conhecem.


Diogo Portugal em seu show em Bauru, dia 10 de Outubro, as 20h, no final da sessão. Este que vos fala está em algum lugar lá atrás, no centro, com uma camiseta listrada. Mas ninguém além dele próprio, conseguiu se distinguir na foto.


domingo, 11 de outubro de 2009

Bela e a Fera ,O Musical da Broadway



A resenha em questão refere-se a apresentação de 03 de Outubro, as 21h.


Desde minha infância o laço afetivo que mantenho com as produções Disney é irrevogável. Não só vindo das personagens icônicas criadas por Walt Disney, como Mickey e turma, mas também das grandes produções cinematográficas do estúdio.

É possível que meu primeiro contato apaixonado pela sétima arte se deva a Disney. Contato que até hoje mantém-se resistente ao tempo, devido a consistência de seus clássicos.

Dessa maneira, Bela e a Fera, é uma desses filmes que, além de sua qualidade, me trazem incríveis memórias afetivas. Foi um filme que vi na estréia, ao lado de minha mãe, acompanhei o relançamento nos cinemas, dez anos depois, com uma cena inédita, e sempre desejei assistir a produção musical inspirada no filme.

Desejo que antecedia essa produção em cartaz. Mas que por impossibilidade, e por ser novo demais, não fui ver a primeira montagem. Sem essa segunda, um de meus grandes desejos, em forma de teatro musical, nunca seria realizado.

A olho nu tem-se a impressão que a segunda produção do musical A Bela e a Fera pareça apenas uma remontagem da primeira. Por ser um espetáculo grandioso, impossibilidade de realizar turnê pelo país, somente há críticas e comentários disponíveis nos grandes veículos de comunicação de São Paulo ou em blogs especializados. Assim, colhi o máximo que pude delas, ao mesmo tempo que, inevitavelmente, li críticas antes de tecer a minha. Algo que sempre faço após meus textos.

Ao contrário da primeira produção, cuja direção ficou a cargo de uma equipe americana, são os britânicos que, dessa vez, tomam as rédeas do espetáculo. No making of exibido no saguão do Teatro Abril, também visto no site oficial do musical, o ator Marcos Tumura, que nas duas montagens faz a personagem de Lumiére, comenta as diferenças de ambas. De acordo com Tumura, a direção britânica deu maior destaque para pequenos detalhes, melhores explorados na peça. Dando maior profundidade as personagens, que se tornaram melhores delineadas.

Divido em duas partes, com doze e oito cenas cada, em duas horas e meia, o espetáculo conta com boa parte do elenco antigo. Alguns reprisam seu papel, como Tumura, Jonathas Joba (Din-Don) e Andressa Mazzei (Dona Cômoda); outros ganharam papel de maior destaque, caso da Fera de Ricardo Viera, antes do coro; E novos atores foram selecionados, como Murilo Trajano interpretando Gaston e a bela Lissah Martins no papel título.

A produção é um verdadeiro deleite e confirma toda a excelência que sempre ouvimos a respeito da famosa Broadway. As canções são executadas por uma orquestra e cantadas ao vivo pelos atores, que demonstram um grande vigor para cantar, interpretar e dançar as diversas coreografias bem elaboradas durante todo o espetáculo.

Figurinos detalhados com direito a enfeites especiais para cada ator que são representações dos objetos do castelo, cenários grandiosos que se locomovem mantendo a ação do palco. Tudo transforma-se em um espetáculo a parte e justifica a grande quantia para a produção desta peça. Embora não revelada oficialmente, é possível se deduzir com base nos gastos de 8 milhões da primeira adaptação.

Além da parte técnica impecável, que reúne efeitos sonoros, luzes sem nenhum defeito de fabricação, é redundante afirmar a excelência do elenco. Surpresa para mim descobrir que Lissah Martins, que também estrelou Miss Saigon, começou sua carreira sendo uma popstar do grupo Rouge. Sua presença no palco, bem como sua voz, adequaram-se perfeitamente ao papel de Bela.

Ricardo Viera, também professor de teatro, mesmo sobre a carregada maquiagem e figurino de 10 quilos, consegue passar toda a emoção de sua personagem. A Fera é o papel mais duplo de toda a história, não só pela sua transformação em algo bestial, mas também por conter o drama central da história: fazer com que alguém se apaixone por ele, antes que a última pétala da rosa encantada caia.

Se sua narrativa possui elementos fantásticos, bem como uma história com viés romântico, típico de uma narrativa mais juvenil, sua ambientação é adequada para que toda a criação se encaixe sem parecer estranho. Bem como permitir que os mais sisudos tenham compaixão pela história e se rendam a emoção da trama. Ainda que muitos imaginem ser um espetáculo voltado ao público infantil, seu enredo possui diversas nuances adultas.

Como já declarado a importância dessa história para mim e minhas memórias afetivas, não vejo mal algum em destacar uma das cenas que mais gosto. Considero simbólica a pequena cena da abertura, do musical Bonjour, em que Bela ganha do bibliotecário o livro que mais gosta e, na fonte d´agua, faz um comentário a respeito da história. Curiosamente, na história preferida de Bela, há um encontro das duas personagens no jardim e uma revelação no final, em que a mocinha descobre quem o mocinho é de verdade.

Não deve ser por acaso que essa referência seja parecida com a história que a personagem viverá. Uma sutileza inserida com delicadeza para os mais atentos que cria uma metalinguagem da própria história.

Embora Murilo Trajano apareça pouco como o Gaston em relação a Fera, seu antagonista, sua música título é um dos pontos altos da trama. Divertida, com uma das melhores coreografia da peça, e demonstra todo seu apuro vocal e dá um tom humorado a trama.

Ainda que todos os musicais sejam esplendorosos, grandiosos e muito bem coreografados, o musical Be Your Guest, traduzido no filme como A Vontade e na peça como Pra Você é, em absoluto, o ponto mais estonteante da peça. Criado propositadamente para ser o ato de maior espetáculo, evocando - já que a personagem que conduz o trecho, Lumiere, é francesa – a idéia de que Paris é sempre uma festa. O ato também funciona como encerramento da parte mais leve da trama.

Além dela, uma das cenas mais esperadas, a dança entre a Bela e a Fera, é de extrema qualidade e beleza mas não tem o mesmo brilho da cena cinematográfica, que demorou dois anos para ser finalizada de tantos detalhes minuciosos desenhados.

A peça prolongou sua temporada, que deveria encerrar-se nas férias, e fica em cartaz até o final de outubro. É aquela oportunidade única para quem não assistiu, assistir. A segunda montagem entrou em cartaz a pedido do público, mas fico com minhas dúvidas se um dia, daqui cinco anos ou mais, pensem em fazer uma terceira.


sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Clube da Comédia Stand Up


A resenha em questão refere-se a apresentação de 29 de Julho.


É quase impossível não conhecer o Clube da Comédia. Qualquer um que procurou vídeos engraçados na internet, naqueles momentos em que rimos sem parar, já se deparou com um dos vídeos dessa trupe. Afinal, o logo circular com um homenzinho no microfone sempre se destaca na penumbra enquanto seus humoristas destilam seu veneno.

Hoje, então, é impossível não conhecer o Clube que toda quarta feira é casa de dois humoristas que na segunda estão na sua televisão de terno e gravata. Mesmo que saibamos os nomes dos dois, são conhecidos como os CQCs.

Fundado em 2005 por Marcelo Mansfield, Rafinha Bastos, Marcela Leal, Oscar Filho, Marcio Ribeiro e Henrique Pantarotto (Hoje a trupe conta com Mansfield, Leal, Oscar e Gentili), não é de se espantar o sucesso do grupo. O estilo variado de humor resulta em uma apresentação excelente em um grande show onde cada um apresenta um pouco de seu trabalho.

Antes do início do espetáculo, o público é brincado com uma câmera bisbilhoteira que observa um dos camarins. Nele, Marcelo Mansfield e o convidado da noite - Maurício Meirelles, até então desconhecido por mim mas que possui um ótimo trabalho – fazem caretas e escrevem bilhetes para o público entre graças e avisos sobre não ser possível filmar ou fotografar o espetáculo.

Pouco depois do horário previsto, começa o espetáculo. Abrem-se as cortinas sem nenhum cenário e Marcelo Mansfield, fazendo a vez de apresentador, faz sua introdução. Pena que suas aparições sejam apenas nos entre atos, fazendo um elo de ligação entre elas. Pontuando um comentário quando possível e inserindo uma piada aqui ou lá. Ainda que com um espaço em cena curto, seus comentários ácidos sobre a televisão brasileira são incríveis.

A primeira apresentação em si cabe a Marcela Leal, a primeira dama do stand up brasileiro. Sua missão ingrata é esquentar o público que, naquela noite, vinha ao teatro após uma chuva pesada. Suas boas piadas seguem o estilo tradicional, possui bons momentos engraçados, mas não contagiaram todo o público, ganhando focos de risos. Ainda que as piadas finais, sobre futebol, tenham, de fato, aquecido o público.

Os aplausos dobram quando uma dos conhecidos do público é anunciado para vir ao palco. O evidente destaque na revista semanal da família brasileira, o CQC, rende muito carinho para receber Oscar Filho. O pequeno mas expressivo Oscar, que já tive o prazer de assistir e de rir muito em seu solo, Putzgrill..., tem um excelente domínio cômico. Pontua bons momentos de silencio, utiliza a entonação certa para causar riso, e aproveita sua expressão corporal para aumentar o efeito da piada.

Quando Maurício Meirelles entra no palco, com poucos aplausos, sua resposta é imediata: “só porque não uso terno e óculos escuros não mereço aplausos?” E o público reverencia um comediante ainda desconhecido para muitos. Com uma verborragia rápida, Mauricio, carioca, diverte a si e ao público falando sobre a cidade de São Paulo. Seu texto toca pontos comuns das piadas de stand up, mas seu talento prova que é possível falar sobre os assuntos de sempre e, ainda assim, sair-se muito bem. No final de sua apresentação, é possível sentir os aplausos verdadeiros de quem conseguir trazer riso e admiração ao público.

Por fim, é a hora do homem de preto mais polêmico, Danilo Gentili. Ao som de muitos aplausos e gritos femininos efusivos, assim como Oscar Filho, o comediante agradece e retruca em piadas os diversos gritos. Danilo é o comediante que mais transita entre assuntos, caminhando da água para o vinho em minutos sem se importar com uma continuidade coerente. Suas piadas são tão boas que esse detalhe torna-se desimportante. Seus temas são os mais agressivos da noite. O estilo é incisivo mas agrada até mesmo aqueles que, antes do espetáculo, me disseram não gostar de sua persona – aqui em uma mistura óbvia confundindo o que o comediante faz no palco e suas piadas no micro blog twitter ou em outros textos difundidos pela internet – entregaram-se ao riso em seu espetáculo. Agradecendo pela presença, Danilo se despede e o show acaba. Sem bis, sem mais.

Sem dúvida O Clube da Comédia é um dos pontos altos do riso do país. É uma pena que a trupe não excursiona pelo interior – a sorte é que seus espetáculos solos rodam o país, mas quem estiver em São Paulo tem obrigação de conferir o espetáculo se for a favor do riso.

Vale recomendar também o espetáculo Putzgrill... de Oscar Filho, cuja resenha está disponível no site e Nocaute, de Marcelo Mansfield. Dois solos do clube que já assisti.

Alias, na apresentação que fui o canhoto do ingresso do Clube da Comédia dava direito a pagar meia no Nocaute, de Mansfield. Portanto é uma boa oportunidade para conferir um, pagar menos no outro e rir o dobro.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Dona Flor e Seus Dois Maridos

Elenco: Carol Castro, Marcelo Faria, Duda Ribeiro Ana Paula Bouzas, Marcello Gonçalves, Elvira Helena, Carlos André Faria, Carolina Freitas, Nelito Reis, Daniely Stenzel, Lisieux Maia, Luana Xavier, Marco Bravo, Ewe Pamplona, Michelle Martins, Fabio Nascimento.

Texto: Jorge Amado

Adaptação: Pedro Vasconcelos e Marcelo Faria

Direção: Pedro Vasconcelos



É com extrema felicidade que posso contar que, certa vez, conversei com o magnífico ator Paulo Autran e pude entrevista-lo para uma revista que publicava na faculdade. Embora a frase a seguir fosse cortada da edição final da entrevista, era algo sempre pronunciado pelo ator: “Digo sempre que atores são do teatro, cinema é dos diretores e a televisão é a arte do anunciante”.
A frase do mestre Autran voltou a minha memória quando, sentado na primeira fila do Teatro Municipal de Araraquara, vi uma das personagens icônicas da literatura brasileira, Vadinho, caminhar até a beira do palco, sentando-se nas escadarias do mesmo – quebrando, assim, a famosa quarta parede teatral – e declamar seu amor por Dona Flor.
Quando se observa um ator em plena ação no palco é que nota-se seu domínio. A intencidade cênica do ator em contraste com o texto escrito. Pontos vitais que fazem atores, como o público, saudarem a arte única do teatro.
Dona Flor e Seus Dois Maridos, peça homônima da obra de Jorge Amado – o baiano que o cânone brasileiro insiste em deixar de lado – estreou em 15 de fevereiro de 2008, no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea. A apresentação do dia 2 de junho de 2009, marcava-se como uma das últimas em que Carol Castro interpretava a personagem principal da história, substituída agora por Fernanda Paes Leme.
Nesse curto espaço de um ano, a peça não só esgotou nas casas por onde passou, fez turnê por cidades do interior e foi elogiada pela crítica. Ganhando, com mérito, 3 prêmios Qualidade Brasil (Melhor Espetáculo, Melhor diretor, Melhor Ator de Comédia – Marcelo Faria) e recebendo duas indicações ao prêmio Shell de Teatro. (Melhor Diretor e Melhor Ator – Marcelo Faria).
A produção merece destaque e aplausos do começo ao fim. Com cenários ricos, remetendo-se ao Pelourinho, não faltam cores e adereços detalhados. As canções são de Caymmi, dando um apetite a mais para a obra. Também a imersão do público durante diversas cenas, em que personagens saem do palco, mantém a peça dinâmica e fazem-na fluir muito bem.
A sintonia do elenco central é perfeita. Carol Castro – que me perdoem, é belíssima ao vivo – se desenvolve bem como Dona Flor, a personagem mais complexa do triangulo amoroso. Mostra-se confortável nas cenas dramáticas e carisma nas cenas apimentadas com Vadinho. Como tudo muda com a entrada de outra atriz, fica minha curiosidade em saber se Fernanda Paes Leme manterá a qualidade de Castro.
Duda Ribeiro, que surge apenas no meio do espetáculo, é excepcional em cena, como o marido repleto de escrúpulos e educação de Dona Flor. Tem um timing cômico muito eficiente e contrapõe-se a altura a desenvoltura desejada pela personagem de Vadinho que, de longe, é o grande destaque.
Até mesmo na obra original é significativo a intensidade e o carisma da personagem malandra de Vadinho. Despir-se literalmente para encarar um personagem e, ainda assim, manter-se bem no papel, não deve ser tarefa fácil. Marcelo Faria está incrível como o assanhado primeiro marido de Flor. Debochado e satírico na medida certa, é um dos grandes papéis do ator, provando sua maturidade – afinal, muitos lembram-se do ator apenas como o Ralado da novela Quatro Por Quatro da Rede Globo.
Embora sem a leitura do livro, após a peça procurei-o na estante e constatei que a peça é bem fiel. Muitas vezes mantendo-se original até mesmo nos diálogos arretados de Jorge Amado.
Sua obra, inclusive, precisa ser revisitada. O relançamento pela Cia Das Letras, em belas edições, é uma excelente pedida. Ainda hoje Amado, por possuir obras que oscilam entre o riso e a sacanagem, não é tido como um grande escritor como um todo.
Evidente que é pura bobagem e preconceito de um grupo de críticos que não enxergam na comédia apimentada do baiano uma história profunda e irônica sobre os homens. Basta aprofundar os olhos sobre a peça.
A figura de Vadinho, retrato fiel do povo brasileiro malandro que encontra sua maneira de realizar as maiores façanhas, até mesmo desafiar a morte por um par de pernas. E o que dizer da duplicidade de Flor com seus dois maridos? Há o que refletir em uma personagem que se contenta com o duplo, ainda que Flor busque em Vadinho apenas seu fogo. Estaríamos, também, descontentes a procura de algo a mais? O nobre e o sátiro, água e fogo, a malandragem e a polidez. A espera de nossos Vadinhos e de nossas Flores.



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Putz Grill... com Oscar Filho

Apresentado no Teatro Municipal “Celina Lourdes Alves Neves” no dia 16 de janeiro de 2009 em Bauru, São Paulo.

Chega a impressionar que a nova vida inteligente na televisão tenha vindo do humor. Um gênero sempre considerado menor que outros gêneros populares e repleto de preconceito por aqueles que não o conhecem.
Mas a internet, aos poucos, muda a faceta disso. Cada vez mais vemos surgir no mundo virtual, humoristas interessantes com boas piadas, para descobrir depois que eles já possuem uma carreira que agora se torna mais sólida graças ao público que, a longa distância, pode também assistir seus shows e apresentações.
Some a esses humoristas espalhados pelo Brasil, a estréia do espetacular humorístico Custe o Que Custar, o famoso CQC, e compreenda que o momento de rir é hoje, e agora.
Vindo diretamente da trupe do CQC e um dos fundadores do Clube da Comédia Stand´Up, Oscar Filho é um humorista incrível. Seguindo a risca o conceito do stand´up, um palco sem cenário, apenas um banco, um pedestal para o microfone e um eventual copo d´agua, Oscar encara o publico de frente, de cara limpa para destilar seu veneno contra tudo aquilo que o irrita ou o lhe é engraçado para que o público morra de rir em suas cadeiras.
O nome da apresentação, Putzgrill..., deriva-se de uma afirmação do próprio comediante, ao dizer que nunca definimos o gênero da palavra, sempre deixando no ar sua parte final. Com fatos do cotidiano, cenários sobre a política, comentários sobre ex-namoradas, olimpíadas e até mesmo a maquiagem do herói Batman, seu humor rápido possui um time perfeito, apoiado também no humor corporal presente em algumas das cenas do espetáculo.
Se as reportagens de Oscar Filho para o semanal CQC costumam ser engraçadas, no palco ele é exemplar. É uma pena que no interior de São Paulo, poucos espetáculos de comédia stand´up cheguem para o público. Mas dessa vez, por coincidência, talvez pelo cosmos - como diria o próprio Oscar em seu monólogo de abertura - tivemos sorte.